Friday, July 20, 2012

retomando o prazer de escrever...


 O XANDE

O Xande ainda pequenininho, quando perguntado pelos adultos, quase sempre  chatos, sobre seu nome, respondia: “eu sou o Tândi”. Era uma típica criança pisciana, dessas que adoravam um cafuné e ao mesmo tempo se manifestava muitíssimo irritado ao menor sinal de qualquer contrariedade, o que em outras palavras significa, no bom dialeto mineiro, “um menino emburrado”. Certa vez, a mãe, na tentativa de convencê-lo a não se irritar quando chegasse ao local em que ele realizaria uma radiografia carpal para o controle do crescimento, disparou: “ meu filho, nós vamos fazer só uma fotografia da sua mãozinha”. E ele retrucou com a imediata cara feia: “fotografia? tá bom, mas eu não vou rir não.”   
Acontece que ele cresceu e ficou fortão. Menino bonito e de posses, o que fazia a ala das garotas lindas e perfumadas pelos hidratantes da Victória’s Secret se aproximarem, como não?  Passou no vestibular na Universidade Pública, como sempre quis e sonhou o pai, e lá pelas tantas e sem avisos, se perdeu num caminho pavimentado por sinistras pedras pontiagudas que lhe feriram corpo e alma... mas em seguida recuperou-se retomando o passo, como se faz os valentes!
Uma noite dessas, voltando de carro de um compromisso, o trânsito nem tão complicado assim porque era o mês de julho em Brasília, o semáforo  ficou vermelho. Parei atrás de uma caminhonete branca. Conferidos modelo, adesivos e placa, constatei: era o Xande. Pisquei o farol e ele demorou alguns segundos para reconhecer a tia, virou-se para trás e abriu um sorrizão, emendando um “ e aê, beleza? ”. Era uma quarta-feira de início de rodadas do Brasileirão. Com o sinal ainda fechado, conferi quando ele se virou de novo e se debruçou  sobre a  janela, falando alto e do jeito bem característico dele: “ tia, bora assistir o jogo do Cruzeiro lá em casa, bora, bora, bora...” Pensei: Brasília, esta pequena e pacata cidade, onde todos se esbarram por aí. O sinal abriu, perguntei  quem mais estaria lá, e nem deu tempo de responder a ele que eu não poderia ir, só fiz aquele gesto meio atrapalhado com a mão, de quando se quer dizer  a alguém do outro lado da rua “depois, outra hora”. 
Continuamos seguindo pela pista, e ele num gesto, que só pude interpretar como de extremo cuidado, quase carinho, foi dirigindo seu carrão potente e sem pressa alguma, na minha frente, como se quisesse me conduzir até o destino para o qual tinha me convidado e era como se estivesse dizendo, “ vamos tia, venha comigo”...
Como não poderia deixar de ser, meu coração mole de tia, que o vi nascer e crescer fora tocado, e foi com pesar que tive que piscar o farol de novo atrás dele para avisá-lo, acionando a seta, de que eu entraria à direita, tomando outro rumo para seguir meu caminho de casa. Ele entendeu, e deu tchau colocando o braço grandão pra fora, já lá na frente.
Mesmo não o avistando mais, continuei  com ele no pensamento, e desejando  fortemente que o Cruzeiro ganhasse naquele dia para que meu “ pequeno emburrado” afinal não se irritasse com seu time do coração... e que bacana, hehehe...veja bem: naquele dia, para a alegria do “Tândi”,  o Cruzeiro ganhou!