Friday, September 03, 2010

Capítulo VINTE...

Naquele dia eles conversaram, trocaram e-mails e deu tempo também de perceber que era Pablo quem tinha muito mais em comum, profissionalmente, com Cora do que tinha Nando. Ainda por cima, Pablo tinha um comportamento e inteligência que a agradavam. Ela o achou simpático. No dia seguinte, quando ela abriu sua caixa de mensagens, tinha uma espécie de recado de Nando, dizendo que tinha ficado feliz em reencontrá-la e saber que ela estava bem, entre outras coisas afáveis. Cora respondeu que sentia o mesmo, e era verdade, mas não se alongou no tema, pelo contrário, não teve vontade alguma de falar sobre o passado. Acabou citando Pablo na conversa e em seguida tentou um contato com ele, sugerido por Nando. Pablo era amável, respondeu ao contato, e eles passaram a se corresponder e a falar sobre trabalho, mas também sobre música e outros tantos assuntos afetos ao bom gosto do qual deveriam ser feitas todas as melodias do mundo. Ela passou a ouvir seus sons preferidos o tempo inteiro, e voltou ao ballet. Pablo escrevia bem, e gostava de João Gilberto, de Tom e de Vinícius. Cora passou a ler o que ele escrevia, e não percebeu quando aquilo passou a deixá-la meio atrapalhada das idéias, porque sua escrita tinha o poder de fazê-la extremamente interessada em tudo. Ela passou a achá-lo mais interessante ainda. Passou a ter por ele uma espécie de sentimento de amizade muito desejada. Era como se pudesse falar sobre coisas que sentia e gostava tendo alguém que compartilhasse aquelas mesmas sensações e ao mesmo tempo um certo estranhamento com as situações mais inexplicáveis da vida. O Brasil se preparava para ir à Copa do Mundo, as quadras residenciais e comerciais da cidade começaram a ser enfeitadas e cobertas por alegorias nas cores verde e amarela. Cora começou a sonhar muito mais. Alan não percebia. Ela tinha encontrado Pablo uma segunda vez, numa ocasião rápida, mas suficiente para alimentar um encantamento gratuito que ela não sabia exatamente de onde tinha vindo. Só sabia que era legítimo e era real. Ele concordou em ir almoçar um dia com ela, e na volta, ao se despedir dele, ela sentiu medo. Teve a sensação de que estava sendo correspondida em sua idealização e ao mesmo tempo de que estava sendo ridiculamente interpretada. Aquilo tudo parecia ter tomado uma proporção emotiva maior do que ela tinha imaginado e sua culpa pudesse permitir. E nesse mesmo dia, à noite, num daqueles seus momentos, pra lá de agradáveis de leitura, deparou-se com uma crônica do Caio Fernando Abreu, que parecia ser em alguns pontos, o relato do que acabara de viver, e que era mais ou menos assim: "Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada..." Naquela noite Alan chegou um pouco mais tarde em casa, e trouxe consigo uma belíssima orquídea. Cora a recebeu com um sorriso não muito verdadeiro, fechou o livro, e na manhã seguinte acordou sobressaltada. Tinha sonhado com Pablo...

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