Friday, September 03, 2010
Capítulo VINTE E UM...
Cora passou a ter muita dificuldade em guardar tanta suposta poesia dentro de si mesma. Em seus pensamentos minuciosamente elaborados tinha a certeza de que, em menor proporção, havia uma atração não revelada de Pablo por ela também, que se fazia sentir em cada detalhe que ele expunha timidamente. Isso fez com que Cora passasse a sentir uma necessidade ainda maior de dizer a ele o quanto sua atenção valia para ela. Em casa, tentava não se dispersar mas era inevitável não pensar nele como alguém que nunca fosse capaz de imputar a ela qualquer tipo de mágoa, como já o tinha feito Alan algumas vezes, mesmo que não tivessem tido nenhum contato mais concreto, além das palavras. Seu lado inconsequente e demasiado impulsivo tomou o comando bem no meio do caminho entre a dificuldade de manter seu segredo e o desejo de ter alguém como Pablo bem perto. Começou a tentar chamar a atenção dele de todas as formas possíveis. Em meio ao poético, escrevia o improvável, e numa dessas tentativas Pablo se irritou profundamente, por não compreender o porquê de tantos desvarios de alguém tão definitivamente comprometida e confusa. E ele, igualmente confuso, pediu por fim, que ela o deixasse em paz. Ela ainda tentou uma explicação na medida do seu desassossêgo, mas não funcionou. E ao invés de conseguir dele o que ela esperava, que era o abraço compreensivo do sim, o que ela recebeu de volta tristemente foi a rasteira indesejada do não. O Brasil perdeu a Copa, e Cora perdeu Pablo. A comunicação entre os dois fora sepultada, e ela precisou de um tempo maior do que previra, para acostumar-se de vez com o vazio que ele lhe impusera em seu lado mais esperançoso e inspirador. Tinham se encontrado enquanto não esperavam nada, e de repente tinham se perdido no meio de tudo, restando para ambos a sensação de um ressentimento inconcluso. Aquele ano ainda lhe reservou uma perda maior que qualquer outra que já tinha vivido até então. A familia Floreira dos Santos acompanhava estarrecida a luta de Gérbera contra o mal que tinha lhe atingido. A amiga Isabela várias vezes emprestou o ombro para que Cora se apoiasse nos momentos em que sentia a profunda angústia de se sentir incapaz de ajudar a irmã, que adorava e guardava com o maior carinho do mundo as coisas que ela sempre escrevia. Ela viajou com Catarina e Carolina para Bela Montanha para que pudessem vê-la. Três dias depois, as irmãs retornaram, ela ficou, e já era quase noite, quando a enfermeira que tinha passado a acompanhar sua irmã entrou no quarto onde ela estava dormindo, em casa. Cora lia sentada em uma cadeira ao lado da cama, e a enfermeira a cumprimentou, percebendo que a pele de Gérbera apresentava um aspecto um pouco diferente do normal. A moça de branco começou então a checar os sinais vitais dela, lançando em seguida um olhar desconfiado e muito sentido para Cora, que experimentou um aperto no peito, desses que nunca se deseja sentir quando se espera algo profundamente doloroso e inevitável. Cora preferiu se esquivar e levantou-se para ir em direção ao oratório da Santa, que tanto sabia sobre sua irmã, para uma ultima súplica, mas era como se a Santa permanecesse impassível, e naquele momento mostrasse mais nitidamente ainda, seu semblante materno de puríssima compreensão e compaixão. Gérbera tinha parado de respirar, enquanto outras pessoas entravam no quarto, e seu filho Caetano sentia lentamente o chão se abrir sob os seus pés. Luana precisou ser amparada no peso insustentável do seu sofrimento, e os dois pediram para se despedirem dela a sós. Ficaram fechados no quarto por um tempo com ela e choraram junto ao corpo inerte da mãe, a maior dor de suas vidas. No plano espiritual havia um jardim com uma floreira que era dedicada aos santos, e Gérbera estava indo naquele momento para decorá-la...
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