Saturday, September 11, 2010

Capítulo VINTE E TRÊS...

Paris, que cidade linda. Aquelas coisas dos cartões postais e das revistas. Cora se manteve em estado de encantamento durante todo o período em que ficou lá. Pudera. Parecia haver vasinhos de flores nas janelas de todos os apartamentos pela cidade inteira, que davam todo um sentido poético ao seu deslumbre. Era primavera na Europa. As moças elegantes com seus chapeuzinhos andando de bicicleta por aquelas ruas cinematográficas faziam Cora ouvir, sem estar tocando, lógico, as músicas de Edith Piaff. Mapa na mão e mochila nas costas, os dois andavam o dia inteiro. Para Cora tudo era lindo e grande, emoldurado pela vastíssima e riquíssima história. No dia das mães, Cora quis acender uma vela para Clara, sua mãe, aos pés da Virgem Maria no Sacre C'oeur, e pediu pela saúde dos olhos dela. Mais que o simbolismo, valia a condição de ter ido tão longe e não ter deixado de render aquela homenagem. No final de uma semana pegaram um trem para Amsterdã, numa viagem bem prazeirosa e inédita. O outro país também era cheio de muita graça e seus habitantes ainda mais. Foram também ao interior para encontrar Tayná e sua trupe, que fazia shows de capoeira por lá todos os anos, e encantavam as crianças de peles bem branquelinhas e olhões azuis. Na volta, uma mala só para trazer as tranqueiras adquiridas no estrangeiro e uns vinhos ótimos comprados a preço de banana. Cora retornou com a cabeça mais leve e deliciou-se com a idéia de seu sobrinho Caetano vir de mudança para Brasilia também. Eram companheiros de platéia do Grupo Corpo, que naquele ano veio para a sala Villa Lobos do Teatro Nacional com o espetáculo BREU, com trilha sonora composta por Lenine. Nas eleições municipais, ela retornou à Margem Grande para subir ao palanque por seu amigo prefeito com quem tinha trabalhado, mas não foi feliz. A prefeitura foi parar nas mãos do adversário bicudo com asas e muitíssimo cara de pau. Uma pena. Na primavera, uma noticia inesperada. Sua irmã Catarina ligou com uma voz mais grave que a do seu normal. Cora esperou o pior. Mas não era nada disso. Pelo contrário, ninguém doente, ninguém morrendo. Era a noticia de uma vida que estava sendo preparada para vir ao mundo no seio dos Floreira dos Santos. Cecília, que tinha comemorado seus quinze anos naquele mesmo ano, agora estava grávida. Catarina seria vovó e Cora, passado o susto, ficou imaginando a pequena criatura já falando pelos cotovelos como falava Cecília em seus primeiros anos de vida. Uma doçura. No fim do ano Cora foi para Bela Montanha para o casamento de Luana e Fred. Fred estava de malas prontas para seu novo trabalho na Austrália. Luana iria em seguida. Catarina chegou a tempo para a despedida de solteira de Luana que foi comemorada pelas tias, primos e primas num lugar inusitado, montado por cooperativas de catadores de lixo e papel e com música ao vivo. Só em Bela Montanha tinha dessas coisas. Cora foi sem Alan e se soltou pra valer na pista de dança com Catarina. No dia do casamento emocionou-se ao ajudar Luana com o vestido. Ela ficou linda, e usou uma Gérbera nos cabelos. No fim do ano, a familia se reuniu na praia para o natal e o ano novo. Alugaram uma casa. Muita comida e muita bebida, não tinha como ser diferente. Na noite de natal, perú e presentes. No meio da troca de votos, Cristiana veio até sua tia Cora e pediu sua atenção, chamando-a discretamente para um canto. Estava muito emocionada e enxugou os olhos. Tinha visto Cecília, já com a barriguinha bem aparente, sentar-se no colo do pai Diogo, e chorar...

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