Tuesday, September 14, 2010

Capítulo VINTE E QUATRO...

No carnaval do ano seguinte Cora e Alan foram conhecer Buenos Aires. Alan tinha muitas reservas em relação ao povo hermano. Achava que não tinham nenhuma educação. Ele se indignou também com tantos carros velhos nas ruas. "Ah não vou não, pagar para andar neste táxi, parece uma lata de lixo!", dizia ele. Os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados e os alfajores devidamente encomendados. Cora pensava ter conseguido afastar qualquer sensação de platonismo ou sentimentos afins àquelas pétalas de sonhos românticos relacionados à Pablo. Puro engano seu. A questão seria pura e simplesmente fácil de ser resolvida desde que não o visse nunca mais. Mas ela o viu. E vê-lo e chegar bem perto dele, para ela bastava. Conversaram pouquíssimo, mas o suficiente para ela se situar e perceber que estava longe de solucionar seus imbróglios comportamentais e sentimentais. Cora não sabia delimitar muito bem o que tinha produzido como fantasia em torno da personalidade de Pablo evidentemente contraposta à de Alan. Assim como duas retas paralelas, cuja interseção só ao infinito pertencesse. Cora sempre almejara aumentar em alguns microgramas o seu desnutrido equilibrio emocional, mas aquilo era uma coisa muito danada de se obter para uma reles mortal, só era possível aos muito puros e evoluídos, ela pensava. E ela pensava, e pensava bastante. Em maio, nasceu Clarisse, a filhota amada de Cecília, a neta adorada de Catarina, o cristal puríssimo de tia Cora. Ela ficou mais que encantada no dia em que viu a pequenucha criatura de alguns dias de vida, no colo da vovó Catarina, tomando leite materno no copinho. A cena era de uma sutileza sem tamanho e ela desejou, do fundo de sua alma, poder um dia ter o dom daquilo como tinha sua irmã. Cora nunca perdia a mania de ler muitas coisas ao mesmo tempo. Misturava a leitura muito séria de Eduardo Gianetti com a muito doida de Pedro Juan Gutierrez, uma salada muito insana talvez, e deveras instigante e palpitante. Mia Couto, ela misturava com Rosa Montero, a escritora que misturava o real com o fantástico de uma forma grandiosa e instigante. Meia volta, volver, e ela corria de novo para o aconchêgo dos braços da poesia de Mário Quintana. Caetano Veloso veio apresentar seu novo show em Brasília e Caetano, o sobrinho, apresentou Dedé, à sua tia Cora. Caetano e Dedé tinham tanto em comum que às vezes até se confundiam nos detalhes. Eram mesmo um par. Um dia almoçando com Isabela no trabalho, Cora sentiu uns sintomas bem estranhos. Nada que ela reconhecesse como normal para seus padrões crônicos. Ela ainda não sabia, mas tinha iniciado um processo de transtorno de ansiedade, que a fez buscar mais tarde uma alternativa de tratamento diferente daquela do consenso geral, e ir parar nas mãos de Olívia. Cora percebeu que trocando-se de lugar a primeira com a ultima letra daquele nome, era possível entender perfeitamente o que ela viera trazer para sua vida, a partir do primeiro momento com as agulhinhas devidamente direcionadas aos seus pontos vitais. Alívio. E a doutora Olívia o sabia bem. Amora concluiu o curso superior naquele ano e Cora se mandou, sem Alan de novo, para Bela Montanha para comemorar com ela o momento tão importante. Se acabaram até às cinco da manhã na pista de dança do baile mais badalado do ano. Tomada por uma coragem muito grande, após ter sonhado com ele, Cora tentou, depois de todo aquele tempo, um contato com Pablo. Não se conformava de não poder sequer trocar idéias com alguém que para ela valia tanto. Ele respondeu. Meio bossa-nova, meio rock'in roll, bem ao estilo dele. Nada muito íntimo ou muito amável, que foi melhorando mais tarde, mas nada também que pudesse ferir de morte o seu amor-próprio. E Cora ficou feliz, assim, meio dance, meio bamba, meio jazz e meio samba...

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