Wednesday, September 08, 2010
Capítulo VINTE E DOIS...
Caetano e Luana se mudaram rapidamente de casa e a prima Amora foi morar com eles. Amora dedicou-se fortemente e fraternalmente aos primos naquele ambiente de árdua superação. No ano seguinte, o irmão mais novo de Cora, Cristiano, casou-se com Angélica. Cora e Alan foram padrinhos do casamento que aconteceu na Cidade do Sol, a cidade natal de Angélica. Aproveitando a ocasião, Cora reencontrou alguns de seus amigos, e relaxou pra valer com os sobrinhos Caetano, Luana e Amora num passeio pelo belíssimo litoral norte. Na volta, ela e Alan começaram os preparativos da mudança para o novo apartamento. Tudo novinho, tudo diferente e envolvente, desde a pintura da parede em cor diferente que Alan fez questão de pintar, até a peregrinação pelas lojas especializadas em apetrechos para casa que eles passaram a fazer semanalmente. Cora tinha decidido iniciar uma busca por coisas leves que tivessem o poder de manter seu coração suficientemente calmo, como fizera da outra vez em que precisou esquecer o que Nando lhe havia deixado como experiência de uma paixão um tanto desmedida. Encontrou um professor de ballet que tinha um gosto musical para sonorizar os exercícios que ía de Marisa Monte com Paulinho da Viola a Bach, passando por Jamie Cullum. Estes dias eram os mais tranquilos, e a bem da verdade, os mais encantados, como não? Lá pelo meio do ano, Cora viajou para ver os sobrinhos em Bela Montanha e se divertiu com eles no show dos Mutantes, com Zélia Duncan nos vocais e Arnaldo Baptista, incrível, rodopiando pelo palco feito uma bailarina muito bêbada. Ela passou a escrever sobre todas as sensações e sobre tudo o que a fazia se inspirar. Postava música, não abria mão de se derramar inteira e se expor envolta por poesia, e porque não resistia, não tinha deixado de acompanhar o que Pablo escrevia também. Muitas vezes tinha a sensação de que ele escrevia para ela, e que por isso restara uma centelha inexplicada. Em outras, se contentava com aquele misto de não-amizade e ternura gratuita que ele imprimia aleatoriamente em seus textos. Ficou feliz da vida, no dia em que encontrou sua velha amiga Samantha, numa rede social da internet. As duas tinham estudado juntas em Bela Montanha e tinham perdido contato há pelo menos uns dez anos, percorrendo caminhos totalmente distintos pós-formatura. A amiga era a mesma criatura simples e dócil de sempre, que tinha conservado até a longa e lisa franja nos cabelos do tempo da faculdade e agora morava bem ali do lado. Samantha tinha se casado com Jorge e tido filhos gêmeos, além do primeiro. Elas se abraçaram forte no dia em que se encontraram e puderam falar e rir muito sobre o passado e sobre todas aquelas criaturas que o habitaram. O tempo tinha implacavelmente passado para todos. Para a felicidade de ambas, Jorge e Alan desenvolveram uma empatia mútua e elas puderam conviver tão próximas como eram quando eles ainda nem existiam para elas. E foi Samantha quem apresentou Cora à pessoa que passaria a cuidar dela da forma com que ela sempre esperava ser cuidada em sua morbidade crônica. A doutora Letícia, que era uma especialista conceituada, era a tranquilidade em pessoa e transmitia seriedade, confiança e acima de tudo esperança, e Cora passou a se sentir melhor, por estar nas mãos de quem cuidava tão bem de sua amiga também. Samantha tinha exatamente a mesma condição de saúde de Cora. Saudosismos à parte, o ano seguinte veio carregado de novidades e numa noite calma, ela foi surpreendida por Alan como nunca tinha sido. Ele chegou em casa com um sorriso estampado e quase eufórico, portando um envelope pardo que começou a abrir antes mesmo de descansar os ombros da mochila pesada. Dentro do envelope, dois folders coloridos, uns papéis com alguns rabiscos que pretendiam ser um roteiro de viagem de trem e uma impressão cheia de traços coloridos que ele lhe apresentou como um presente. Era o mapa do metrô da cidade de Paris...
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