Friday, September 17, 2010

Capítulo VINTE E CINCO...

Pronto. Tudo que Cora queria era voltar a falar com Pablo. Prometeu a si mesma e a ele também que iria fazê-lo com cuidado. Para isso tinha que rogar a proteção do outro: o Neruda. Tentaria não assustá-lo mais, com tanta informação que vinha direto de sua alma, e atropelava tudo. Contemplaria muito mais o silêncio, e ela bem que se esforçou. Que ano bom. O Grupo Corpo aportou de novo na cidade, agora com o espetáculo ÍMÃ. Caetano ficava encarregado sempre de ir comprar os ingressos. Eles gostavam de ir sempre aos domingos, para poderem ir trabalhar na segunda-feira com suas almas muito bem lavadas. Cora se encarregava de levar os lenços. Não tinha jeito. Tia e sobrinho não tinham pudor algum em abrir o berreiro quando a música e os movimentos tocavam suas artérias. E dessa vez os bailarinos resolveram dar uma banana para a gravidade e se meteram a levitar e a voar pelo palco ao som de trombones. Por um desígnio dos céus, o coração de Cora era fortíssimo e ele seguiu suportar a emoção da coreografia embalada pela música "Sopro". Aquilo não tinha explicação no mundo das coisas muito concretas, no mundo simples ou real ou corriqueiro. Aquilo lá era um mergulho no infinito da oitava casa astrológica (a casa forte de Cora), meio que virada do avesso, que só Brígida explicaria. Cora e Alan tinham programado uma nova viagem, aproveitando um feriado bem prolongado. Desta vez foram para New York. A meca do consumo oportuno porque os preços eram todos pela metade e do consumo exagerado portanto, cujos padroeiros, São Credicard e Santa Visa eram muito reverenciados. Na Times Square era onde o mundo inteiro se encontrava e Cora delirou ao entrar num teatro da Broadway para assistir ao "Fantasma da Ópera". De novo, os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados, e os dois tiveram que adquirir algumas malas a mais para que as tranqueiras importadas pudessem ser devidamente transportadas de volta ao Brasil. Na volta, Cora precisou começar o tratamento com a dra. Olívia. Alívio. Ela passou a controlar a sua própria pressão arterial só com a respiração adequada e demais manobras orientais milenares. Nada de remédios controlados, nada de agressões gratuitas ao organismo através do radicalismo alopático. Não era fácil, mas a dra. Olívia dizia que era possível, e era mesmo. A proposta era um reequilibrio emocional e fisiológico. Nada mal, para quem precisou a vida inteira tão fortemente dos dois. O fim de ano foi na Cidade do Sol. Cora queria descanso, mas não pôde contar com Alan para isso e quis voltar pra casa antes. Dessa forma poderia ouvir Thelonious Monk ou Chet Baker em volume um pouco mais alto e merecido ecoando pela casa. Na verdade Cora percebeu-se insuportável também, e preferiu não piorar o verão de todos ao redor, que nao tinham nada a ver com suas confusões íntimas. Silêncio. Só a conversa cifrada com Pablo permanecia. Mudanças profundas no trabalho estavam por acontecer, o que deixava o ambiente envolto em especulações. Cora era temente a grandes guinadas. Ademais cultivava uma extensa afinidade com sua chefe Suzana, que até aquele momento não sabia do seu próprio destino profissional. Mas para o contentamento geral, as coisas se resolveram tranquilas. E por obra de Suzana, Cora fez uma viagem ótima por quinze dias a trabalho. Conheceu pessoas ótimas também, e trouxe a mala cheia de tranqueiras importadas de novo. Um tempo depois encontrou Pablo, e ele estava mais à vontade do que o normal. Conversaram. Mas eles não se olhavam diretamente nos olhos quando ficavam frente a frente. Havia uma névoa, havia uma espécie de medo ou seja lá que nome tivesse, o certo é que nenhum dos dois sabia o que era. Só sabiam que não eram nada naturais quando se aproximavam a uma distância concreta. Um assunto jamais tocado pessoalmente, e nunca resolvido na mente poeticamente perturbada de Cora Maria e que ecoava nos quatro cantos do seu mundo de incertezas, enquanto Chico Buarque cantava no i-pod...


Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Modesto
Um tipo de amor

Que é de mendigar cafuné

Que é pobre e às vezes nem é

Honesto
Pechincha de amor

Mas que eu faço tanta questão

Que se tiver precisão

Eu furto
Vem cá, meu amor

Aguenta o teu cantador

Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor

Com o zelo de quem leva o andor

Eu velo pelo meu amor

Que sonha
Que enfim, nosso amor

Também pode ter seu valor

Também é um tipo de flor

Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem

Que não deve nada a ninguém

Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Barato
Um tipo de amor

Que é de esfarrapar e cerzir

Que é de comer e cuspir

No prato...

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