Wednesday, September 01, 2010

Capítulo DEZENOVE...

Uma das atribuições corriqueiras de Cora no trabalho consistia em participar de todo tipo de evento relacionado ao assunto politicas de saúde, do qual ela mais gostava. Certa vez quem estava na abertura de um deles era ninguém menos que o escritor Ariano Suassuna. Ela maravilhou-se, conseguiu chegar bem pertinho dele, o que para ela bastava. Voltou pra casa inspiradíssima pela genialidade contagiante e o poder de arrancar o riso frouxo até do mais carrancudo ser humano, que tinha aquele velho. Sentiu saudades de rir com Laila, que a esta altura já era mãe das gêmeas Elis e Jade e morava em Enseada. No embalo da graça do escritor, escreveu uma espécie de mini-crônica, que falava sobre as travessuras de vovô Tico, que mesmo com uma idade avançada não se furtava a realizar estripulias, e que ficou bem a cara dele. Carolina, suspeita como sempre, adorou. A saúde de Cora ia bem, mas precisava de um profissional que a entendesse e a acompanhasse de forma mais holística ou cuidadosa o bastante para ouvir seus reclames de forma um pouco mais acolhedora. A amiga americana de Caetano tinha trazido para ela o CD "aja", um clássico do Steely Dan, que usava para meditar, ou popularmente falando: viajar na maionese mesmo. E ela fazia longas viagens, porque aquele foi um período em que um certo afastamento emocional entre ela e Alan se fazia cada vez mais presente, e em que o placar apontava para um resultado nada animador (Intimidade: dez X Romantismo: zero). Cora tinha dúvidas e achava que Alan também tinha as suas. Uma situação até normal pela qual passam todos os casais, uns em menor escala, e outros com menor intenção, durante seus longos percursos a dois. Mesmo assim, uma bela oportunidade bateu à porta e eles não hesitaram em investir. Compraram um apartamento ainda em construção em outro bairro e passaram à contagem regressiva para a entrega, que seria dali a um ano. No carnaval, a familia Floreira dos Santos se encontrou na fazenda de Carolina. Muita comida e muita bebida, era sempre assim. Mas dessa vez havia uma preocupação entre todos. Gérbera não estava bem. Tinha tido o diagnóstico de uma doença grave e se encontrava em um penoso tratamento. Era muito ruim, vê-la tão debilitada, e pior ainda não ter como encontrar caminhos mais suaves para o enfrentamento daquela condição. Lá pelo mês de abril, a chefe de Cora pediu pra que ela fosse à uma reunião para substituí-la em outro órgão. No fim da reunião, caminhou para esperar o elevador junto às outras pessoas enquanto ainda conversavam sobre os encaminhamentos que tinham sido discutidos lá dentro. A porta do elevador se abriu, e o primeiro a sair e a dar de cara com ela foi um rapaz. Foi Nando quem saiu lá de dentro e quase trombou nela, de crachá e algumas pastas na mão, que quase caíram quando ele a reconheceu. Ela se espantou tanto que levou sem querer as duas mãos abertas ao rosto. Ele era o mesmo, estava de óculos. O mesmo que desembarcara na Cidade do Sol há alguns anos atrás, numa tarde em que ela jamais imaginaria ter com alguém aqueles momentos bastante raros. Nunca mais tinham se falado, nunca mais tinham se visto, e foi visível o contentamento dos dois pela bela coincidência. Passado o susto, se afastaram para se cumprimentarem direito. E foi quando ela percebeu que Nando estava acompanhado de alguém que se parecia muito com ele, só que um pouco mais retraído. E ele os apresentou: "Cora, este é meu primo Pablo. Pablo, esta é minha amiga Cora"...

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