Monday, September 20, 2010

Capítulo VINTE E SEIS...Ultimo capítulo...

Naquela sexta-feira tudo parecia normal. Era inverno, mas nada do frio chegar. Cora tinha tido uma semana agitada pós férias rápidas no Chile. Achou o lugar muito bacana, principalmente porque tinha encontrado Lenine lá. No meio da tarde, já sem muitas obrigações, ela procurou pelas palavras escritas de Pablo. Não as encontrou. Notou uma estranha ausência em sua lista de contatos. De repente o nome de Pablo tinha desaparecido de lá. Intrigou-se. Abriu as outras listas e nada. Abriu em seguida todas as suas páginas de redes sociais e se espantou mais ainda. Pablo tinha sumido de todas elas. Cora respirou fundo, tentando se situar. Verificou de novo. Nada apareceu. Era como se Pablo simplesmente tivesse evaporado. Ela pensou um pouco mais e lhe veio a idéia de perguntar a Nando. Há muito tempo não o via e nem falava com ele. Preferiu ligar. Nando sempre simpático do outro lado da linha. Cora foi direto ao assunto. Queria saber se ele sabia do paradeiro do primo. Nando pareceu não entender e perguntou a que primo ela se referia: "você está perguntando do meu primo Tom? que mora no Rio? " Cora respondeu que não, e Nando continuou: " então de quem você está falando? porque fora os que moram no Rio e você já ouviu falar, tem os meninos daqui." Cora disse que sim, estava falando do seu primo de Brasilia, Pablo. Nando riu e perguntou: "que eu saiba não tenho nenhum primo com esse nome, a não ser que tia Eulália ou tia Simone tenham ido ao cartório nos ultimos dias trocar os nomes das crianças." Cora parou de falar para se convencer. Nando falava a verdade. Ela deu um jeito de desviar o assunto, de dizer que estava brincando e que tinha ligado só por saudades mesmo. Quando desligou Cora sentiu uma estranha sensação de realidade em volta. Tudo exatamente no lugar, só ela tinha estado fora de órbita muitas vezes. A grande verdade era que Pablo não existia! Sim, ela o tinha inventado. Todas as vezes que se encontrara com ele fora em sonho. Seus sonhos eram muito reais, e essa era a explicação da maior parte do problema. Ela o tinha inventado como o seu perfeito e fabuloso complemento. Um ser cuja existência só seria possível na imaginação mesmo. No seu processo de reequilibrio, ela percebeu o quanto tinha fantasiado em torno da perfeição, da poesia e da música. Depois de cair em si, Cora sentiu-se triste por concluir que seus desejos haviam ido além do que ela podia controlar e por muitas vezes tinham lhe usurpado a razão. Sentiu-se triste, porque aquilo era a parte que ela gostava de cultivar como seu lado criativo e emotivo. Sentiu-se triste porque precisava desistir de pensar nele como real. Já tinha pensado até em escrever um livro. Era um sonho também. Por isso se mantinha sonhando. Foi pra casa, ouvindo música. Ouvindo tudo o que de mais encantador e sereno tinha para ouvir durante o trajeto. Quando chegou, e Alan lhe perguntou o que havia com ela, ela quis emitir sinais de naturalidade, ainda com a música do Caetano Veloso na cabeça. Voltou do quarto, decidida que estava mesmo enganada sobre a existência de um sentimento tão sobrenatural, e foi sentar-se com Alan no sofá. Ele a abraçou e ela sentiu o aconchêgo nada abstrato do seu amor bem presente ali, na simplicidade do dia e do cotidiano descomplicado. Sabendo que o assunto a agradaria, Alan lhe perguntou pelo livro que ela tinha dito que escreveria um dia. Cora gostou do papo e de repente se animou. Na semana seguinte começou a pensar num projeto. Começaria a escrever. Faria publicamente na internet e sabia que podia contar com seus leitores prá lá de suspeitos como colaboradores e grandes incentivadores. Deu certo. Ela começou a contar sua própria história que envolveu suas irmãs, seus sobrinhos, seus pais, seus amigos e mais um tanto de outras personalidades. Cora se divertiu e seu desejo de escrever ficou maior a cada capítulo. Catarina, Carolina, Caetano, Luana, Amora, Laila, Cristiano, envolvidos na história, passaram a postar comentários com seus nomes fictícios de Marina, Marilene, Gustavo, Ana Luiza, Renatinha, Luciana, Marcelo. Cora passou a imaginar seu livro já pronto e editado. Seria um romance. Queria que sua história fosse assim super atordoante, como era atordoante a escuridão dos que sonham em demasia, e ao mesmo tempo deliciosa, tão deliciosa quanto um brigadeiro. E as coisas caminharam bem. Tão bem que ela conseguiu por fim publicar o seu livro. Diante de tamanha realização ela não resistiu. Marcou uma pequena recepção para seus queridos leitores para brincar de noite de autógrafos. Todos entraram na brincadeira. Cora adorando tudo. Fizeram uma fila, para que tudo saísse como se fosse bem chic e normal. No meio das conversas e dos risos, Cora sentada, levantou os olhos para falar com o próximo da fila. E o próximo da fila era um rapaz, que trazia seu livro nas mãos para ser autografado. Cora o olhou, não o conhecia, mas gostou de cara do jeito com que ele se aproximou e fixou os olhos nela. E ela perguntou então qual era o seu nome, e ele respondeu que o seu nome era Pablo...





FIM



Talvez


Talvez não ser,

é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando o meio dia

com uma flor azul,

sem que caminhes mais tarde

pela névoa e pelos tijolos,

sem essa luz

que levas na mão

que, talvez, outros não verão dourada,

que talvez

ninguém soube que crescia

como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim,

sem que viesses brusca, incitante

conhecer a minha vida,

rajada de roseira,

trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és

E desde então és

sou e somos...

E por amor

Serei... Serás...Seremos...


Pablo Neruda

Friday, September 17, 2010

Capítulo VINTE E CINCO...

Pronto. Tudo que Cora queria era voltar a falar com Pablo. Prometeu a si mesma e a ele também que iria fazê-lo com cuidado. Para isso tinha que rogar a proteção do outro: o Neruda. Tentaria não assustá-lo mais, com tanta informação que vinha direto de sua alma, e atropelava tudo. Contemplaria muito mais o silêncio, e ela bem que se esforçou. Que ano bom. O Grupo Corpo aportou de novo na cidade, agora com o espetáculo ÍMÃ. Caetano ficava encarregado sempre de ir comprar os ingressos. Eles gostavam de ir sempre aos domingos, para poderem ir trabalhar na segunda-feira com suas almas muito bem lavadas. Cora se encarregava de levar os lenços. Não tinha jeito. Tia e sobrinho não tinham pudor algum em abrir o berreiro quando a música e os movimentos tocavam suas artérias. E dessa vez os bailarinos resolveram dar uma banana para a gravidade e se meteram a levitar e a voar pelo palco ao som de trombones. Por um desígnio dos céus, o coração de Cora era fortíssimo e ele seguiu suportar a emoção da coreografia embalada pela música "Sopro". Aquilo não tinha explicação no mundo das coisas muito concretas, no mundo simples ou real ou corriqueiro. Aquilo lá era um mergulho no infinito da oitava casa astrológica (a casa forte de Cora), meio que virada do avesso, que só Brígida explicaria. Cora e Alan tinham programado uma nova viagem, aproveitando um feriado bem prolongado. Desta vez foram para New York. A meca do consumo oportuno porque os preços eram todos pela metade e do consumo exagerado portanto, cujos padroeiros, São Credicard e Santa Visa eram muito reverenciados. Na Times Square era onde o mundo inteiro se encontrava e Cora delirou ao entrar num teatro da Broadway para assistir ao "Fantasma da Ópera". De novo, os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados, e os dois tiveram que adquirir algumas malas a mais para que as tranqueiras importadas pudessem ser devidamente transportadas de volta ao Brasil. Na volta, Cora precisou começar o tratamento com a dra. Olívia. Alívio. Ela passou a controlar a sua própria pressão arterial só com a respiração adequada e demais manobras orientais milenares. Nada de remédios controlados, nada de agressões gratuitas ao organismo através do radicalismo alopático. Não era fácil, mas a dra. Olívia dizia que era possível, e era mesmo. A proposta era um reequilibrio emocional e fisiológico. Nada mal, para quem precisou a vida inteira tão fortemente dos dois. O fim de ano foi na Cidade do Sol. Cora queria descanso, mas não pôde contar com Alan para isso e quis voltar pra casa antes. Dessa forma poderia ouvir Thelonious Monk ou Chet Baker em volume um pouco mais alto e merecido ecoando pela casa. Na verdade Cora percebeu-se insuportável também, e preferiu não piorar o verão de todos ao redor, que nao tinham nada a ver com suas confusões íntimas. Silêncio. Só a conversa cifrada com Pablo permanecia. Mudanças profundas no trabalho estavam por acontecer, o que deixava o ambiente envolto em especulações. Cora era temente a grandes guinadas. Ademais cultivava uma extensa afinidade com sua chefe Suzana, que até aquele momento não sabia do seu próprio destino profissional. Mas para o contentamento geral, as coisas se resolveram tranquilas. E por obra de Suzana, Cora fez uma viagem ótima por quinze dias a trabalho. Conheceu pessoas ótimas também, e trouxe a mala cheia de tranqueiras importadas de novo. Um tempo depois encontrou Pablo, e ele estava mais à vontade do que o normal. Conversaram. Mas eles não se olhavam diretamente nos olhos quando ficavam frente a frente. Havia uma névoa, havia uma espécie de medo ou seja lá que nome tivesse, o certo é que nenhum dos dois sabia o que era. Só sabiam que não eram nada naturais quando se aproximavam a uma distância concreta. Um assunto jamais tocado pessoalmente, e nunca resolvido na mente poeticamente perturbada de Cora Maria e que ecoava nos quatro cantos do seu mundo de incertezas, enquanto Chico Buarque cantava no i-pod...


Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Modesto
Um tipo de amor

Que é de mendigar cafuné

Que é pobre e às vezes nem é

Honesto
Pechincha de amor

Mas que eu faço tanta questão

Que se tiver precisão

Eu furto
Vem cá, meu amor

Aguenta o teu cantador

Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor

Com o zelo de quem leva o andor

Eu velo pelo meu amor

Que sonha
Que enfim, nosso amor

Também pode ter seu valor

Também é um tipo de flor

Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem

Que não deve nada a ninguém

Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Barato
Um tipo de amor

Que é de esfarrapar e cerzir

Que é de comer e cuspir

No prato...

Tuesday, September 14, 2010

Capítulo VINTE E QUATRO...

No carnaval do ano seguinte Cora e Alan foram conhecer Buenos Aires. Alan tinha muitas reservas em relação ao povo hermano. Achava que não tinham nenhuma educação. Ele se indignou também com tantos carros velhos nas ruas. "Ah não vou não, pagar para andar neste táxi, parece uma lata de lixo!", dizia ele. Os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados e os alfajores devidamente encomendados. Cora pensava ter conseguido afastar qualquer sensação de platonismo ou sentimentos afins àquelas pétalas de sonhos românticos relacionados à Pablo. Puro engano seu. A questão seria pura e simplesmente fácil de ser resolvida desde que não o visse nunca mais. Mas ela o viu. E vê-lo e chegar bem perto dele, para ela bastava. Conversaram pouquíssimo, mas o suficiente para ela se situar e perceber que estava longe de solucionar seus imbróglios comportamentais e sentimentais. Cora não sabia delimitar muito bem o que tinha produzido como fantasia em torno da personalidade de Pablo evidentemente contraposta à de Alan. Assim como duas retas paralelas, cuja interseção só ao infinito pertencesse. Cora sempre almejara aumentar em alguns microgramas o seu desnutrido equilibrio emocional, mas aquilo era uma coisa muito danada de se obter para uma reles mortal, só era possível aos muito puros e evoluídos, ela pensava. E ela pensava, e pensava bastante. Em maio, nasceu Clarisse, a filhota amada de Cecília, a neta adorada de Catarina, o cristal puríssimo de tia Cora. Ela ficou mais que encantada no dia em que viu a pequenucha criatura de alguns dias de vida, no colo da vovó Catarina, tomando leite materno no copinho. A cena era de uma sutileza sem tamanho e ela desejou, do fundo de sua alma, poder um dia ter o dom daquilo como tinha sua irmã. Cora nunca perdia a mania de ler muitas coisas ao mesmo tempo. Misturava a leitura muito séria de Eduardo Gianetti com a muito doida de Pedro Juan Gutierrez, uma salada muito insana talvez, e deveras instigante e palpitante. Mia Couto, ela misturava com Rosa Montero, a escritora que misturava o real com o fantástico de uma forma grandiosa e instigante. Meia volta, volver, e ela corria de novo para o aconchêgo dos braços da poesia de Mário Quintana. Caetano Veloso veio apresentar seu novo show em Brasília e Caetano, o sobrinho, apresentou Dedé, à sua tia Cora. Caetano e Dedé tinham tanto em comum que às vezes até se confundiam nos detalhes. Eram mesmo um par. Um dia almoçando com Isabela no trabalho, Cora sentiu uns sintomas bem estranhos. Nada que ela reconhecesse como normal para seus padrões crônicos. Ela ainda não sabia, mas tinha iniciado um processo de transtorno de ansiedade, que a fez buscar mais tarde uma alternativa de tratamento diferente daquela do consenso geral, e ir parar nas mãos de Olívia. Cora percebeu que trocando-se de lugar a primeira com a ultima letra daquele nome, era possível entender perfeitamente o que ela viera trazer para sua vida, a partir do primeiro momento com as agulhinhas devidamente direcionadas aos seus pontos vitais. Alívio. E a doutora Olívia o sabia bem. Amora concluiu o curso superior naquele ano e Cora se mandou, sem Alan de novo, para Bela Montanha para comemorar com ela o momento tão importante. Se acabaram até às cinco da manhã na pista de dança do baile mais badalado do ano. Tomada por uma coragem muito grande, após ter sonhado com ele, Cora tentou, depois de todo aquele tempo, um contato com Pablo. Não se conformava de não poder sequer trocar idéias com alguém que para ela valia tanto. Ele respondeu. Meio bossa-nova, meio rock'in roll, bem ao estilo dele. Nada muito íntimo ou muito amável, que foi melhorando mais tarde, mas nada também que pudesse ferir de morte o seu amor-próprio. E Cora ficou feliz, assim, meio dance, meio bamba, meio jazz e meio samba...

Saturday, September 11, 2010

Capítulo VINTE E TRÊS...

Paris, que cidade linda. Aquelas coisas dos cartões postais e das revistas. Cora se manteve em estado de encantamento durante todo o período em que ficou lá. Pudera. Parecia haver vasinhos de flores nas janelas de todos os apartamentos pela cidade inteira, que davam todo um sentido poético ao seu deslumbre. Era primavera na Europa. As moças elegantes com seus chapeuzinhos andando de bicicleta por aquelas ruas cinematográficas faziam Cora ouvir, sem estar tocando, lógico, as músicas de Edith Piaff. Mapa na mão e mochila nas costas, os dois andavam o dia inteiro. Para Cora tudo era lindo e grande, emoldurado pela vastíssima e riquíssima história. No dia das mães, Cora quis acender uma vela para Clara, sua mãe, aos pés da Virgem Maria no Sacre C'oeur, e pediu pela saúde dos olhos dela. Mais que o simbolismo, valia a condição de ter ido tão longe e não ter deixado de render aquela homenagem. No final de uma semana pegaram um trem para Amsterdã, numa viagem bem prazeirosa e inédita. O outro país também era cheio de muita graça e seus habitantes ainda mais. Foram também ao interior para encontrar Tayná e sua trupe, que fazia shows de capoeira por lá todos os anos, e encantavam as crianças de peles bem branquelinhas e olhões azuis. Na volta, uma mala só para trazer as tranqueiras adquiridas no estrangeiro e uns vinhos ótimos comprados a preço de banana. Cora retornou com a cabeça mais leve e deliciou-se com a idéia de seu sobrinho Caetano vir de mudança para Brasilia também. Eram companheiros de platéia do Grupo Corpo, que naquele ano veio para a sala Villa Lobos do Teatro Nacional com o espetáculo BREU, com trilha sonora composta por Lenine. Nas eleições municipais, ela retornou à Margem Grande para subir ao palanque por seu amigo prefeito com quem tinha trabalhado, mas não foi feliz. A prefeitura foi parar nas mãos do adversário bicudo com asas e muitíssimo cara de pau. Uma pena. Na primavera, uma noticia inesperada. Sua irmã Catarina ligou com uma voz mais grave que a do seu normal. Cora esperou o pior. Mas não era nada disso. Pelo contrário, ninguém doente, ninguém morrendo. Era a noticia de uma vida que estava sendo preparada para vir ao mundo no seio dos Floreira dos Santos. Cecília, que tinha comemorado seus quinze anos naquele mesmo ano, agora estava grávida. Catarina seria vovó e Cora, passado o susto, ficou imaginando a pequena criatura já falando pelos cotovelos como falava Cecília em seus primeiros anos de vida. Uma doçura. No fim do ano Cora foi para Bela Montanha para o casamento de Luana e Fred. Fred estava de malas prontas para seu novo trabalho na Austrália. Luana iria em seguida. Catarina chegou a tempo para a despedida de solteira de Luana que foi comemorada pelas tias, primos e primas num lugar inusitado, montado por cooperativas de catadores de lixo e papel e com música ao vivo. Só em Bela Montanha tinha dessas coisas. Cora foi sem Alan e se soltou pra valer na pista de dança com Catarina. No dia do casamento emocionou-se ao ajudar Luana com o vestido. Ela ficou linda, e usou uma Gérbera nos cabelos. No fim do ano, a familia se reuniu na praia para o natal e o ano novo. Alugaram uma casa. Muita comida e muita bebida, não tinha como ser diferente. Na noite de natal, perú e presentes. No meio da troca de votos, Cristiana veio até sua tia Cora e pediu sua atenção, chamando-a discretamente para um canto. Estava muito emocionada e enxugou os olhos. Tinha visto Cecília, já com a barriguinha bem aparente, sentar-se no colo do pai Diogo, e chorar...

Wednesday, September 08, 2010

Capítulo VINTE E DOIS...

Caetano e Luana se mudaram rapidamente de casa e a prima Amora foi morar com eles. Amora dedicou-se fortemente e fraternalmente aos primos naquele ambiente de árdua superação. No ano seguinte, o irmão mais novo de Cora, Cristiano, casou-se com Angélica. Cora e Alan foram padrinhos do casamento que aconteceu na Cidade do Sol, a cidade natal de Angélica. Aproveitando a ocasião, Cora reencontrou alguns de seus amigos, e relaxou pra valer com os sobrinhos Caetano, Luana e Amora num passeio pelo belíssimo litoral norte. Na volta, ela e Alan começaram os preparativos da mudança para o novo apartamento. Tudo novinho, tudo diferente e envolvente, desde a pintura da parede em cor diferente que Alan fez questão de pintar, até a peregrinação pelas lojas especializadas em apetrechos para casa que eles passaram a fazer semanalmente. Cora tinha decidido iniciar uma busca por coisas leves que tivessem o poder de manter seu coração suficientemente calmo, como fizera da outra vez em que precisou esquecer o que Nando lhe havia deixado como experiência de uma paixão um tanto desmedida. Encontrou um professor de ballet que tinha um gosto musical para sonorizar os exercícios que ía de Marisa Monte com Paulinho da Viola a Bach, passando por Jamie Cullum. Estes dias eram os mais tranquilos, e a bem da verdade, os mais encantados, como não? Lá pelo meio do ano, Cora viajou para ver os sobrinhos em Bela Montanha e se divertiu com eles no show dos Mutantes, com Zélia Duncan nos vocais e Arnaldo Baptista, incrível, rodopiando pelo palco feito uma bailarina muito bêbada. Ela passou a escrever sobre todas as sensações e sobre tudo o que a fazia se inspirar. Postava música, não abria mão de se derramar inteira e se expor envolta por poesia, e porque não resistia, não tinha deixado de acompanhar o que Pablo escrevia também. Muitas vezes tinha a sensação de que ele escrevia para ela, e que por isso restara uma centelha inexplicada. Em outras, se contentava com aquele misto de não-amizade e ternura gratuita que ele imprimia aleatoriamente em seus textos. Ficou feliz da vida, no dia em que encontrou sua velha amiga Samantha, numa rede social da internet. As duas tinham estudado juntas em Bela Montanha e tinham perdido contato há pelo menos uns dez anos, percorrendo caminhos totalmente distintos pós-formatura. A amiga era a mesma criatura simples e dócil de sempre, que tinha conservado até a longa e lisa franja nos cabelos do tempo da faculdade e agora morava bem ali do lado. Samantha tinha se casado com Jorge e tido filhos gêmeos, além do primeiro. Elas se abraçaram forte no dia em que se encontraram e puderam falar e rir muito sobre o passado e sobre todas aquelas criaturas que o habitaram. O tempo tinha implacavelmente passado para todos. Para a felicidade de ambas, Jorge e Alan desenvolveram uma empatia mútua e elas puderam conviver tão próximas como eram quando eles ainda nem existiam para elas. E foi Samantha quem apresentou Cora à pessoa que passaria a cuidar dela da forma com que ela sempre esperava ser cuidada em sua morbidade crônica. A doutora Letícia, que era uma especialista conceituada, era a tranquilidade em pessoa e transmitia seriedade, confiança e acima de tudo esperança, e Cora passou a se sentir melhor, por estar nas mãos de quem cuidava tão bem de sua amiga também. Samantha tinha exatamente a mesma condição de saúde de Cora. Saudosismos à parte, o ano seguinte veio carregado de novidades e numa noite calma, ela foi surpreendida por Alan como nunca tinha sido. Ele chegou em casa com um sorriso estampado e quase eufórico, portando um envelope pardo que começou a abrir antes mesmo de descansar os ombros da mochila pesada. Dentro do envelope, dois folders coloridos, uns papéis com alguns rabiscos que pretendiam ser um roteiro de viagem de trem e uma impressão cheia de traços coloridos que ele lhe apresentou como um presente. Era o mapa do metrô da cidade de Paris...

Friday, September 03, 2010

Capítulo VINTE E UM...

Cora passou a ter muita dificuldade em guardar tanta suposta poesia dentro de si mesma. Em seus pensamentos minuciosamente elaborados tinha a certeza de que, em menor proporção, havia uma atração não revelada de Pablo por ela também, que se fazia sentir em cada detalhe que ele expunha timidamente. Isso fez com que Cora passasse a sentir uma necessidade ainda maior de dizer a ele o quanto sua atenção valia para ela. Em casa, tentava não se dispersar mas era inevitável não pensar nele como alguém que nunca fosse capaz de imputar a ela qualquer tipo de mágoa, como já o tinha feito Alan algumas vezes, mesmo que não tivessem tido nenhum contato mais concreto, além das palavras. Seu lado inconsequente e demasiado impulsivo tomou o comando bem no meio do caminho entre a dificuldade de manter seu segredo e o desejo de ter alguém como Pablo bem perto. Começou a tentar chamar a atenção dele de todas as formas possíveis. Em meio ao poético, escrevia o improvável, e numa dessas tentativas Pablo se irritou profundamente, por não compreender o porquê de tantos desvarios de alguém tão definitivamente comprometida e confusa. E ele, igualmente confuso, pediu por fim, que ela o deixasse em paz. Ela ainda tentou uma explicação na medida do seu desassossêgo, mas não funcionou. E ao invés de conseguir dele o que ela esperava, que era o abraço compreensivo do sim, o que ela recebeu de volta tristemente foi a rasteira indesejada do não. O Brasil perdeu a Copa, e Cora perdeu Pablo. A comunicação entre os dois fora sepultada, e ela precisou de um tempo maior do que previra, para acostumar-se de vez com o vazio que ele lhe impusera em seu lado mais esperançoso e inspirador. Tinham se encontrado enquanto não esperavam nada, e de repente tinham se perdido no meio de tudo, restando para ambos a sensação de um ressentimento inconcluso. Aquele ano ainda lhe reservou uma perda maior que qualquer outra que já tinha vivido até então. A familia Floreira dos Santos acompanhava estarrecida a luta de Gérbera contra o mal que tinha lhe atingido. A amiga Isabela várias vezes emprestou o ombro para que Cora se apoiasse nos momentos em que sentia a profunda angústia de se sentir incapaz de ajudar a irmã, que adorava e guardava com o maior carinho do mundo as coisas que ela sempre escrevia. Ela viajou com Catarina e Carolina para Bela Montanha para que pudessem vê-la. Três dias depois, as irmãs retornaram, ela ficou, e já era quase noite, quando a enfermeira que tinha passado a acompanhar sua irmã entrou no quarto onde ela estava dormindo, em casa. Cora lia sentada em uma cadeira ao lado da cama, e a enfermeira a cumprimentou, percebendo que a pele de Gérbera apresentava um aspecto um pouco diferente do normal. A moça de branco começou então a checar os sinais vitais dela, lançando em seguida um olhar desconfiado e muito sentido para Cora, que experimentou um aperto no peito, desses que nunca se deseja sentir quando se espera algo profundamente doloroso e inevitável. Cora preferiu se esquivar e levantou-se para ir em direção ao oratório da Santa, que tanto sabia sobre sua irmã, para uma ultima súplica, mas era como se a Santa permanecesse impassível, e naquele momento mostrasse mais nitidamente ainda, seu semblante materno de puríssima compreensão e compaixão. Gérbera tinha parado de respirar, enquanto outras pessoas entravam no quarto, e seu filho Caetano sentia lentamente o chão se abrir sob os seus pés. Luana precisou ser amparada no peso insustentável do seu sofrimento, e os dois pediram para se despedirem dela a sós. Ficaram fechados no quarto por um tempo com ela e choraram junto ao corpo inerte da mãe, a maior dor de suas vidas. No plano espiritual havia um jardim com uma floreira que era dedicada aos santos, e Gérbera estava indo naquele momento para decorá-la...

Capítulo VINTE...

Naquele dia eles conversaram, trocaram e-mails e deu tempo também de perceber que era Pablo quem tinha muito mais em comum, profissionalmente, com Cora do que tinha Nando. Ainda por cima, Pablo tinha um comportamento e inteligência que a agradavam. Ela o achou simpático. No dia seguinte, quando ela abriu sua caixa de mensagens, tinha uma espécie de recado de Nando, dizendo que tinha ficado feliz em reencontrá-la e saber que ela estava bem, entre outras coisas afáveis. Cora respondeu que sentia o mesmo, e era verdade, mas não se alongou no tema, pelo contrário, não teve vontade alguma de falar sobre o passado. Acabou citando Pablo na conversa e em seguida tentou um contato com ele, sugerido por Nando. Pablo era amável, respondeu ao contato, e eles passaram a se corresponder e a falar sobre trabalho, mas também sobre música e outros tantos assuntos afetos ao bom gosto do qual deveriam ser feitas todas as melodias do mundo. Ela passou a ouvir seus sons preferidos o tempo inteiro, e voltou ao ballet. Pablo escrevia bem, e gostava de João Gilberto, de Tom e de Vinícius. Cora passou a ler o que ele escrevia, e não percebeu quando aquilo passou a deixá-la meio atrapalhada das idéias, porque sua escrita tinha o poder de fazê-la extremamente interessada em tudo. Ela passou a achá-lo mais interessante ainda. Passou a ter por ele uma espécie de sentimento de amizade muito desejada. Era como se pudesse falar sobre coisas que sentia e gostava tendo alguém que compartilhasse aquelas mesmas sensações e ao mesmo tempo um certo estranhamento com as situações mais inexplicáveis da vida. O Brasil se preparava para ir à Copa do Mundo, as quadras residenciais e comerciais da cidade começaram a ser enfeitadas e cobertas por alegorias nas cores verde e amarela. Cora começou a sonhar muito mais. Alan não percebia. Ela tinha encontrado Pablo uma segunda vez, numa ocasião rápida, mas suficiente para alimentar um encantamento gratuito que ela não sabia exatamente de onde tinha vindo. Só sabia que era legítimo e era real. Ele concordou em ir almoçar um dia com ela, e na volta, ao se despedir dele, ela sentiu medo. Teve a sensação de que estava sendo correspondida em sua idealização e ao mesmo tempo de que estava sendo ridiculamente interpretada. Aquilo tudo parecia ter tomado uma proporção emotiva maior do que ela tinha imaginado e sua culpa pudesse permitir. E nesse mesmo dia, à noite, num daqueles seus momentos, pra lá de agradáveis de leitura, deparou-se com uma crônica do Caio Fernando Abreu, que parecia ser em alguns pontos, o relato do que acabara de viver, e que era mais ou menos assim: "Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada..." Naquela noite Alan chegou um pouco mais tarde em casa, e trouxe consigo uma belíssima orquídea. Cora a recebeu com um sorriso não muito verdadeiro, fechou o livro, e na manhã seguinte acordou sobressaltada. Tinha sonhado com Pablo...

Wednesday, September 01, 2010

Capítulo DEZENOVE...

Uma das atribuições corriqueiras de Cora no trabalho consistia em participar de todo tipo de evento relacionado ao assunto politicas de saúde, do qual ela mais gostava. Certa vez quem estava na abertura de um deles era ninguém menos que o escritor Ariano Suassuna. Ela maravilhou-se, conseguiu chegar bem pertinho dele, o que para ela bastava. Voltou pra casa inspiradíssima pela genialidade contagiante e o poder de arrancar o riso frouxo até do mais carrancudo ser humano, que tinha aquele velho. Sentiu saudades de rir com Laila, que a esta altura já era mãe das gêmeas Elis e Jade e morava em Enseada. No embalo da graça do escritor, escreveu uma espécie de mini-crônica, que falava sobre as travessuras de vovô Tico, que mesmo com uma idade avançada não se furtava a realizar estripulias, e que ficou bem a cara dele. Carolina, suspeita como sempre, adorou. A saúde de Cora ia bem, mas precisava de um profissional que a entendesse e a acompanhasse de forma mais holística ou cuidadosa o bastante para ouvir seus reclames de forma um pouco mais acolhedora. A amiga americana de Caetano tinha trazido para ela o CD "aja", um clássico do Steely Dan, que usava para meditar, ou popularmente falando: viajar na maionese mesmo. E ela fazia longas viagens, porque aquele foi um período em que um certo afastamento emocional entre ela e Alan se fazia cada vez mais presente, e em que o placar apontava para um resultado nada animador (Intimidade: dez X Romantismo: zero). Cora tinha dúvidas e achava que Alan também tinha as suas. Uma situação até normal pela qual passam todos os casais, uns em menor escala, e outros com menor intenção, durante seus longos percursos a dois. Mesmo assim, uma bela oportunidade bateu à porta e eles não hesitaram em investir. Compraram um apartamento ainda em construção em outro bairro e passaram à contagem regressiva para a entrega, que seria dali a um ano. No carnaval, a familia Floreira dos Santos se encontrou na fazenda de Carolina. Muita comida e muita bebida, era sempre assim. Mas dessa vez havia uma preocupação entre todos. Gérbera não estava bem. Tinha tido o diagnóstico de uma doença grave e se encontrava em um penoso tratamento. Era muito ruim, vê-la tão debilitada, e pior ainda não ter como encontrar caminhos mais suaves para o enfrentamento daquela condição. Lá pelo mês de abril, a chefe de Cora pediu pra que ela fosse à uma reunião para substituí-la em outro órgão. No fim da reunião, caminhou para esperar o elevador junto às outras pessoas enquanto ainda conversavam sobre os encaminhamentos que tinham sido discutidos lá dentro. A porta do elevador se abriu, e o primeiro a sair e a dar de cara com ela foi um rapaz. Foi Nando quem saiu lá de dentro e quase trombou nela, de crachá e algumas pastas na mão, que quase caíram quando ele a reconheceu. Ela se espantou tanto que levou sem querer as duas mãos abertas ao rosto. Ele era o mesmo, estava de óculos. O mesmo que desembarcara na Cidade do Sol há alguns anos atrás, numa tarde em que ela jamais imaginaria ter com alguém aqueles momentos bastante raros. Nunca mais tinham se falado, nunca mais tinham se visto, e foi visível o contentamento dos dois pela bela coincidência. Passado o susto, se afastaram para se cumprimentarem direito. E foi quando ela percebeu que Nando estava acompanhado de alguém que se parecia muito com ele, só que um pouco mais retraído. E ele os apresentou: "Cora, este é meu primo Pablo. Pablo, esta é minha amiga Cora"...