Naquela sexta-feira tudo parecia normal. Era inverno, mas nada do frio chegar. Cora tinha tido uma semana agitada pós férias rápidas no Chile. Achou o lugar muito bacana, principalmente porque tinha encontrado Lenine lá. No meio da tarde, já sem muitas obrigações, ela procurou pelas palavras escritas de Pablo. Não as encontrou. Notou uma estranha ausência em sua lista de contatos. De repente o nome de Pablo tinha desaparecido de lá. Intrigou-se. Abriu as outras listas e nada. Abriu em seguida todas as suas páginas de redes sociais e se espantou mais ainda. Pablo tinha sumido de todas elas. Cora respirou fundo, tentando se situar. Verificou de novo. Nada apareceu. Era como se Pablo simplesmente tivesse evaporado. Ela pensou um pouco mais e lhe veio a idéia de perguntar a Nando. Há muito tempo não o via e nem falava com ele. Preferiu ligar. Nando sempre simpático do outro lado da linha. Cora foi direto ao assunto. Queria saber se ele sabia do paradeiro do primo. Nando pareceu não entender e perguntou a que primo ela se referia: "você está perguntando do meu primo Tom? que mora no Rio? " Cora respondeu que não, e Nando continuou: " então de quem você está falando? porque fora os que moram no Rio e você já ouviu falar, tem os meninos daqui." Cora disse que sim, estava falando do seu primo de Brasilia, Pablo. Nando riu e perguntou: "que eu saiba não tenho nenhum primo com esse nome, a não ser que tia Eulália ou tia Simone tenham ido ao cartório nos ultimos dias trocar os nomes das crianças." Cora parou de falar para se convencer. Nando falava a verdade. Ela deu um jeito de desviar o assunto, de dizer que estava brincando e que tinha ligado só por saudades mesmo. Quando desligou Cora sentiu uma estranha sensação de realidade em volta. Tudo exatamente no lugar, só ela tinha estado fora de órbita muitas vezes. A grande verdade era que Pablo não existia! Sim, ela o tinha inventado. Todas as vezes que se encontrara com ele fora em sonho. Seus sonhos eram muito reais, e essa era a explicação da maior parte do problema. Ela o tinha inventado como o seu perfeito e fabuloso complemento. Um ser cuja existência só seria possível na imaginação mesmo. No seu processo de reequilibrio, ela percebeu o quanto tinha fantasiado em torno da perfeição, da poesia e da música. Depois de cair em si, Cora sentiu-se triste por concluir que seus desejos haviam ido além do que ela podia controlar e por muitas vezes tinham lhe usurpado a razão. Sentiu-se triste, porque aquilo era a parte que ela gostava de cultivar como seu lado criativo e emotivo. Sentiu-se triste porque precisava desistir de pensar nele como real. Já tinha pensado até em escrever um livro. Era um sonho também. Por isso se mantinha sonhando. Foi pra casa, ouvindo música. Ouvindo tudo o que de mais encantador e sereno tinha para ouvir durante o trajeto. Quando chegou, e Alan lhe perguntou o que havia com ela, ela quis emitir sinais de naturalidade, ainda com a música do Caetano Veloso na cabeça. Voltou do quarto, decidida que estava mesmo enganada sobre a existência de um sentimento tão sobrenatural, e foi sentar-se com Alan no sofá. Ele a abraçou e ela sentiu o aconchêgo nada abstrato do seu amor bem presente ali, na simplicidade do dia e do cotidiano descomplicado. Sabendo que o assunto a agradaria, Alan lhe perguntou pelo livro que ela tinha dito que escreveria um dia. Cora gostou do papo e de repente se animou. Na semana seguinte começou a pensar num projeto. Começaria a escrever. Faria publicamente na internet e sabia que podia contar com seus leitores prá lá de suspeitos como colaboradores e grandes incentivadores. Deu certo. Ela começou a contar sua própria história que envolveu suas irmãs, seus sobrinhos, seus pais, seus amigos e mais um tanto de outras personalidades. Cora se divertiu e seu desejo de escrever ficou maior a cada capítulo. Catarina, Carolina, Caetano, Luana, Amora, Laila, Cristiano, envolvidos na história, passaram a postar comentários com seus nomes fictícios de Marina, Marilene, Gustavo, Ana Luiza, Renatinha, Luciana, Marcelo. Cora passou a imaginar seu livro já pronto e editado. Seria um romance. Queria que sua história fosse assim super atordoante, como era atordoante a escuridão dos que sonham em demasia, e ao mesmo tempo deliciosa, tão deliciosa quanto um brigadeiro. E as coisas caminharam bem. Tão bem que ela conseguiu por fim publicar o seu livro. Diante de tamanha realização ela não resistiu. Marcou uma pequena recepção para seus queridos leitores para brincar de noite de autógrafos. Todos entraram na brincadeira. Cora adorando tudo. Fizeram uma fila, para que tudo saísse como se fosse bem chic e normal. No meio das conversas e dos risos, Cora sentada, levantou os olhos para falar com o próximo da fila. E o próximo da fila era um rapaz, que trazia seu livro nas mãos para ser autografado. Cora o olhou, não o conhecia, mas gostou de cara do jeito com que ele se aproximou e fixou os olhos nela. E ela perguntou então qual era o seu nome, e ele respondeu que o seu nome era Pablo...
FIM
Talvez
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio dia
com uma flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz
que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez
ninguém soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
Pablo Neruda