Cora e Alan, ambos motivados e felizes da vida, trataram de se ajeitar na nova cidade. No fundo, Cora já tinha uma idéia de que não ficaria para sempre em sua cidade natal. Brasília, esta cidade real, concretamente fincada no meio do cerrado rico em ipês de todas as cores e um céu de azul profundo famoso, estava bem próximo do que ela tinha desejado desde que deixara a belíssima Cidade do Sol. Foram morar em um bairro tranquilo, num apartamento meio velho, no terceiro andar de um prédio só de escadas, mas com espaço suficiente para o que tinham acumulado como casal nos ultimos anos. Na primeira semana, resolveu dar uma volta de reconhecimento pelas redondezas e encontrou um lugar ótimo para comprar frutas e verduras. Esqueceu-se da ausência de elevadores que teria que enfrentar e resolveu levar duas sacolas de laranjas para casa. Lá foi ela, subindo, e no final do quinto lance das escadas uma das sacolinhas se abriu e lá se foi um bando de laranjas rolando e saltitando fora de seu controle. Ela parou suspirando e sentou-se, e de repente as laranjas pareciam caçoar dela, rindo, desembestadas, trombando umas nas outras, pulando os degraus meio encardidos escada abaixo. Observou, e caiu na risada junto com elas. Ela se lembrou de que Brígida já anunciara em seu mapa astral, anos atrás, algumas coisas que só agora começavam a lhe fazer sentido. Coisas do tipo: "mudanças domésticas", "futuro profissional em grandes estruturas" "importantes descobertas"e demais especulações filosóficas e arrítmicas. O ano passou rápido. Catarina também veio de mudança, deixando a cidade de Redentor para trás. Brasília era real. Brasília era surreal. Uma arquitetura que se fazia referência internacional e uma população tão misturada e diversa de culturas como uma colcha de retalhos bem alegre e colorida. No novo trabalho ela se adaptou rápido, teve sorte. Fora lotada num setor onde ela poderia se manter conectada com os ideais já aprimorados de construção de soluções mais solidárias para o contexto da saúde, e dessa vez num nível muito mais abrangente. Partindo-se do início de tudo, lá no pequeno município, o seu universo realmente se expandira. Cora passou uma boa temporada fora para fazer um curso de formação e na volta, aguardou as formalidades para o início do novo trabalho. Com tempo de sobra, leu e escreveu algumas coisinhas fuleiras, só para provar que ainda podia e que ainda estava em plena forma. Mas tempo de sobra para ela, depois de tanto movimento anterior, significava espaço para elucubrações e variações sentimentais em grande escala. Algumas mudanças no comportamento de Alan a deixaram em dúvida se ele havia realmente se encontrado emocionalmente e profissionalmente ou se ainda procurava razões ou qualquer outra coisa diferente do que ela achava que ele tinha vindo buscar. Como ele não gostava de falar abertamente sobre o assunto, ela mantinha sua desconfiança, e sua imaginação e senso crítico fluíam de maneira equivocada ou não, a depender do seu ciclo ovulatório, assim como o fazem a grande maioria da espécie do gênero feminino. Desde o primeiro dia de trabalho Cora descobrira uma colega de trabalho especial, Isabela, de astral e maturidade incríveis. Tiveram uma empatia mútua e se tornaram depois grandes amigas. E foi Isabela quem passou a compartilhar todas as suas confidências e a apoiá-la no ano seguinte, que tinha previsão de ser emocionalmente muitíssimo complicado...
Sunday, August 29, 2010
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