Tuesday, August 17, 2010
Capítulo TREZE...
Quando Alan voltou pra casa dos pais no final daquela temporada com uma aliança no dedo, já tinha decidido que sua vida precisava ser recomeçada ao lado dela. Tratou de ir atrás da sua tranferência na faculdade que ainda cursava para dar continuidade aos estudos em Mangaí. Em um mês ele desembarcou de novo no JK, e dessa vez com um pouco mais de bagagem. Deixou para trás só o que sabia que não lhe caberia mais em sua nova condição de homem responsável por si mesmo, e todo o resto fluiu naturalmente. Carolina se dispôs a ajudá-los. Tinha uma empresa, a Colheita Tratores, onde ele poderia ser inserido como colaborador. Eles encontraram rápido um apartamento pequeno, que ficava em cima de uma farmácia cujos donos eram vizinhos muito simpáticos. Ela partia toda segunda-feira de manhã para Margem Grande e retornava às sextas-feiras à tarde. João Felício era seu companheiro da estrada que era esburacada e poeirenta na maior parte do trajeto. Aproveitavam para botar toda a fofoca da semana em dia, e ainda ficava faltando, porque eram só cinquenta quilômetros, afinal. Durante a semana inteira cada um se virava sozinho. Alan tinha aprendido com a mãe alguns truques culinários e teve que colocá-los em prática para se manter bem alimentado. Nos finais de semana eles cozinhavam juntos, liam o jornal no banco da pracinha, iam ao clube, assistiam a filmes alugados na locadora. Alan gostava da feira dos produtores e aprendeu a comer até os legumes dos quais ele dizia não gostar. Não havia muita coisa a se fazer em Mangaí, e as pessoas ás vezes tinham que correr atrás de seu próprio entretenimento. Para ela não havia muitas opções de leitura. Vez ou outra encontrava bons clássicos em edições de capa dura que vinham junto a alguma revista na banca. Um dia sentiu muitas saudades e escreveu uma cartinha para a sobrinha Cecília, filha de Catarina. Cecília era uma fofucha. Elaborava frases e falava melhor que a maioria dos adultos desde que começou a se entender por gente. Foi ao correio. Ela e Alan decidiram pela formalização do casamento, mas só quando os pais de Alan pudessem estar presentes, o que seria então só nas férias de janeiro. Numa tarde dessas, em Margem Grande, lá pela metade do segundo semestre, ela se dirigiu tranquilamente de branco, as barras da calça sujas da poeira incessante e o jaleco na mão, à creche municipal para começar um trabalho com as crianças. Tinha iniciado um projeto ousado que pretendia ser de promoção da saúde bucal para os pequenos, com a intensão de envolver também suas mães. Faria palestras, tentaria reverter o quadro epidemiológico precário instalado, porque continuava acreditando em mágicas soluções em saúde bucal da época de graduanda à beira da colação de grau. Ao se aproximar do trabalho naquele dia, tudo estava no lugar: as calçadas recém pintadas, os arbustos bem cuidadinhos e a placa nova no lugar. Só uma coisa lhe chamou a atenção. A bicicleta de Zé-limão estava estacionada na porta. Quando ela ia entrando deu de cara com ele saindo, totalmente esbaforido: " o prefeito tá chamanocê lá no gabinete e é urgente". Ela se assustou um pouco, mas disse que já ia. Frente ao afobamento dele, ela até pensou em pedir uma carona mas nem deu tempo, porque em segundos Zé-limão já tinha montado em sua bicicleta e descia em direção à prefeitura disparado, quase atropelando as galinhas de estimação de dona Dina, que fugiam pra rua todos os dias e voltavam quando ela chamava. Quando ela chegou ao gabinete, o cunhado Roberto, marido de Carolina, conhecido como Roberto da Colheita, aliado politico, e dono de boa parte das terras da região, tomava café com o prefeito, sentado muito confortavelmente na cadeira. E os dois a receberam para uma conversa bastante séria...
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