Monday, August 02, 2010

Capítulo SETE...

Um namoro? sim, engataram um namoro. Eles moravam um pouco distantes um do outro, mas nos fins de semana, principalmente nos que davam praia, havia o desejo. Eram diferentes. Talvez uma versão alternativa para "Eduardo e Mônica", só que com menos leveza. Na verdade, havia bastante tempo que ela não andava se importando muito com suas manias não satisfeitas. Não que não houvesse cumplicidade. Seus corpos às vezes pareciam imantados. Mas havia também uma certa distância subjetiva, mas que ela decidiu percorrer de qualquer jeito, sob o risco de ter que resolver tudo depois. Ele trouxe a possibilidade da diversão e um começo sem atropelos. Ela o enxergava alegre, na maioria das vezes, até que um dia o descobriu profundamente angustiado e absorto numa nuvem densa demais para ser suportada sozinho. Decidiu compartilhar. Ele, numa situação familiar delicada, ela numa situação individual propensa a todo tipo de saudade. A irmã fazia tudo por ela, desde carregá-la para todas as festas do babado da cidade, até cuidar de ensinar a cozinheira que não deveria colocar açúcar em todas as coisas. A irmã vivia um momento super astral e promissor naquela cidade, e tentava contagiar todo mundo. E ela conseguia. Certa vez, o cunhado viajando, foram as duas, para uma festa à fantasia, com direito a uns drinks estupendos e tanta diversão, que no dia seguinte não se lembrava nem de como a irmã a tinha levado pra casa. Por sorte, podia contar com a compreensão do cunhado. Um dia, depois de vê-la ao telefone com ar de proposta, a irmã quis saber: "... ah é?, e quem é ele?". E quando ela contou, ouviu só um "humm", de volta, porque era meio avessa a julgamentos antecipados. O namoro, ora ia bem, ora ia tão mal que não se cogitava sequer ir atrás das respostas. Nesses momentos, de extrema chateação, tornava-se mau-humorada, não se engraçava com muita coisa. Sentia culpa por saber que nem tinha mais idade para ter sentimentos tão infantis de possessão sem justificativas. Numa tarde dessas, num rápido relax, lembrou-se que tinha ótimo gosto musical, porque até disso tinha se esquecido um pouco. O moço que vendia brincos no calçadão da praia tocava uma gaita. Ela se aproximou para ouvir melhor. Reconheceu a música. Era a clássica "Manish Boy" de Muddy Waters, e fingiu estar olhando os brincos que tinham um estilo bem riponga, que não era absolutamente o seu, e ficou por ali só para continuar ouvindo. Os brincos eram horríveis, cada um mais feio que o outro. Umas pedras fuleiras que não combinavam em nada com as sementes, mas foi obrigada a levar um, porque sua auto-estima estava em frangalhos e o gaitista-riponga-artesão a chamou de princesa. "Não vai levar um brinco, princesa?"...



Continua... no próximo Capítulo!

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