Foi o Dr. Benício Cadotti quem medicou sua mãe. Clara já tinha tido transtornos anteriores e estava há muito tempo sem os episódios agudos. Dr. Benício era muitíssimo paciente e tecnicamente bastante graduado, e dessa vez, o diagnóstico e o tratamento sob sua batuta tinham sido ultra-adequados. Mesmo com o apoio providencial de Alan, nossa protagonista não sabia lidar calmamente com a situação. Nessa época, ainda não era claro para ela que sua dificuldade dizia respeito a algumas coisas que não conseguia suportar em si mesma. Ligou para a irmã Catarina, chorou o quanto pôde, e a deixou preocupada. Catarina não pensou muito, e pegou logo um avião de Redentor para Bela Montanha. Algumas semanas depois de tratamento, as coisas foram voltando ao normal, por uma bela conjunção de fatores, o socorro do irmão mais velho Heitor, a acolhida de Gérbera e o colo de Catarina. Explique-se: a familia Floreira dos Santos não era grande só em tamanho. Dentro de seus contornos cabiam toneladas de compreensão e solidariedade nesses momentos críticos. Vovô Tico havia se casado uma primeira vez, tinha tido nove filhos e ficado viúvo. Casou-se depois com Clara, que deu à luz mais quatro. Carolina, Catarina e Cristiano eram seus irmãos por parte de pai e mãe. Uma imensa familia. Cristiano era o mais novo, tinha uma ligação especial própria de caçula com a mãe, e pôde ajudar na reabilitação emocional dela na volta pra casa. Ele tinha voltado a morar na casa dos pais, depois de ter experimentado também a Cidade do Sol e Redentor como moradas. Com a recuperação de Clara, no final do ano havia o que comemorar e o Natal reuniria todo o pessoal de novo. Nessas ocasiões, cada um tinha um caso engraçado a contar, um prato diferente a cozinhar e no final das contas, todos tinham abraços para compartilhar. A chuva chegou, a poeira baixou, a vida seguiu. Em Margem Grande as brigas politicas continuaram e ela passou a sentir cansaço também dos deslocamentos semanais e da ausência de sossêgo para pensar em coisas mais leves. Como secretária de saúde tinha passado a frequentar as reuniões com os representantes da secretaria de saúde do Estado, e ao final de quase três anos na esfera municipal, foi convidada a fazer parte na equipe da esfera estadual. Passaria a trabalhar em Mangaí e portanto não houve nada que a fizesse pensar em não aceitar o convite. Um novo desafio. Um desafio maior ainda do que tinha sido o primeiro, a diferença é que dessa vez ela já se encontrava totalmente á vontade por estar envolvida de forma quase apaixonada pelo assunto saúde pública. Pensou também em estar mais perto de Alan, já que ele tinha dado sinais de não estar tão satisfeito sozinho na maioria do tempo, naquela cidade nada familiar, de clima sufocante e sem atrativos. Pediu as contas na prefeitura e trocou o vínculo municipal pelo estadual, no embalo de cuidar também de organizar melhor seu cotidiano e seus pensamentos. Capacitou-se ainda mais na área, e entendeu que aquilo seria por muito tempo. Não quis mais trabalhar com a clinica. Tinha deixado de lado aos poucos a profissão original, desacostumando-se daquele desenho de quatro paredes, uma auxiliar e um paciente. Tinha percebido um horizonte muito maior em suas novas experiências com coisas grandiosas ao redor e muitas obrigações a definir e a cumprir. Considerava estar realmente contribuindo para o bem-estar coletivo das pessoas da região, mesmo que as idéias carecessem sempre de um pouco mais de disposição orçamentária para serem colocadas em prática. A saúde pública era assim, somente para os românticos incorrigíveis ou, na pior das hipóteses, para os passionais sem muita noção...
Continua... no próximo capítulo!
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