Friday, August 20, 2010
Capítulo QUATORZE...
Ela ficou de pé. A sensação era de que iria levar uma grande bronca sobre o jogo de cintura que mantinha com os adversários politicos do prefeito. Na verdade detestava aquela eterna e insensata briga politica naquele lugar tão pequeno. E ele foi logo disparando: " Estou falando aqui com seu cunhado que você será nossa nova secretária de saúde. Eneida não é mais secretária, ela é uma traidora. Acabei de exonerá-la do cargo". Ela sentou-se, lançou para o cunhado aquele olhar de "salve-me, por favor" e ele, com uma calma de monge, só perguntou com toda a objetividade do mundo se ela achava que era capaz. O prefeito interrompeu, com o jeitão já conhecido: " Não se preocupe, converse com Silvia, e se você achar que precisa, procure um curso que ensine sobre administração municipal e legislação de saúde. Não quero mais saber de Eneida, além de traidora é uma chata de galocha, não é Roberto, o que você acha?" e Roberto repetiu a pergunta. Ela respondeu meio automaticamente que achava que tinha condições de assumir tal posto, mas que ia precisar se capacitar bastante. Ela não tinha a menor noção do que fosse uma gestão pública em nenhuma das três esferas, mas resolveu encarar assim mesmo. Saiu dali direto para a sala onde funcionava a secretaria de saúde. Silvia estava lá. Era uma servidora antiga da casa. Conhecia todos os sistemas e a burocracia inerentes ao departamento. Elas já se conheciam e quando ela contou a novidade recebeu um sorrisão. Ninguém gostava de Eneida. Ela então partiu para fazer todos os cursos possíveis e foi se adaptando ao desafio que era organizar a provisão da assistência gratuita de saúde ao povo, contando apenas com uma unidade de saúde de cuidados primários e muitas, mas muitas dores de cabeça a serem debeladas. Fez primeiro um curso à distância e depois passou a ir uma vez por mês para Bela Montanha, na escola onde tinha feito a graduação. Alguns professores da área social ainda estavam lá, e acharam muito bacana a posição que ela passara a ocupar. Nas aulas da pós-graduação havia uma liberdade e sempre tinha um exemplo concreto e por vezes engraçado de Margem Grande a compartilhar. De ambulância sem freios a mutirão de catarata, ela teve que passar a entender e a resolver. Em Bela Montanha ela se hospedava na casa da irmã mais velha, Gérbera, que vivia naquela época , a experiência de uma separação conjugal ha tempos desejada, na companhia dos filhos Caetano e Luana. Gérbera tinha um enorme talento para os detalhes e um bom gosto invejável. Era decoradora, enfeitava tudo e rezava para a Santa. Comprava flores toda semana na feira, mesmo que não houvesse motivo algum para embelezar a sala ou estivesse triste o bastante para não desejar ir até lá. Seu talento culinário também era conhecido, assim como sua risada quando o caso era realmente engraçado. Falava pouco de si mesma. Sobre suas emoções profundas, talvez só a Santa soubesse. Em agosto vovô Tico faria oitenta anos, e uma festa ótima foi preparada pra ele em Mangaí. Os filhos se reuniram, teve música ao vivo, teatro amador dos netos, fizeram um campeonato de futebol, festejaram por dois dias. Alan filmou tudo e depois editou. No movimento, ninguém, inclusive ela, reparou que sua mãe Clara não estava bem. Só no dia seguinte constataram que ela tinha passado a noite em claro e que tinha iniciado um novo episódio de adoecimento mental, posteriormente diagnosticado como catatonia. Providências tomadas, ela partiu com Alan para Bela Montanha levando sua mãe para um novo ciclo de tratamento de dias sofridos e extenuantes. Durante a viagem, cada vez que via um ipê amarelo, ela tentava fazer uma espécie de oração, porque sentia-se emocionalmente debilitada e incapaz de acolher como deveria, a própria mãe. Eram daqueles momentos delicados e difíceis. Mas Alan estava lá , e ao contrário dela, sabia rezar inteira, a prece de Cáritas...
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