Thursday, August 12, 2010

Capítulo ONZE...

Foi seu pai quem a buscou no aeroporto JK. O patriarca da familia Floreira dos Santos, Vovô Tico, como era carinhosamente chamado pelos netos e bisnetos, tinha alugado o táxi do seu amigo em Mangaí, e viajado alguns quilômetros para ir buscá-la, imaginando certeiramente que ela traria consigo uma tralha gigantesca, já que vinha de mudança. Vovô Tico já beirava os oitenta anos, mas ainda tinha disposição para mais uma coleção de décadas. O gesto dele lhe trouxe um conforto emocional maior até do que o abraço que ele lhe deu no desembarque. Na viagem, reparou no céu que estava azul demais, enquanto ouvia a conversa animada do simpático motorista com seu pai. No final das frases ele dizia: " o senhor não acha, seu Tico?" E ele respondia: " pois não é?". Na chegada, sua mãe Clara, a esperava com a mesma paciência e resignação, e as pouquíssimas palavras de sempre. Tinha feito pão de queijo, e o café e o suco de maracujá, sem açúcar. Ela não quis admitir de cara, mas não reconhecia mais seu antigo quarto como seu. Acomodou-se, mas não quis mexer em muitas coisas no primeiro dia, preferiu ir ver a irmã e os sobrinhos. Na semana seguinte teria que se apresentar para o novo trabalho na prefeitura da cidade de Margem Grande, antigo distrito do município de Mangaí, distante cinquenta quilômetros. Margem Grande era uma cidade minúscula onde um espirro de alguém na praça da prefeitura às dez horas da noite podia ser ouvido por todos os habitantes do lugar. O posto de saúde era arrumadinho, e o novo prefeito estava cheio de projetos para o seu mandato. A politica do lugar era ferrenha. O adversário politico era um inimigo e ponto final. Um dia o prefeito a chamou para saber porque ela tinha solicitado à Secretaria de Saúde que comprasse um tipo de anestesia mais cara.
" é porque estamos com alguns pacientes cardíacos e hipertensos que não podem ser anestesiados com vasoconstritor" ela respondeu.
" Ah é? e quem são?" perguntou o prefeito, já que conhecia até quem ainda estava por nascer.
"Olha prefeito, tem o Seu Zé Mundin, a dona Nena do Tião, a esposa do João das abelhas, e também o seu Nico leiteiro e a Solange do salão", ela disse. E o prefeito tratou logo de fazer piada, pois eram todos adversários politicos:
"Ah, mas esses aí você não precisa anestesiar não, viu? hehehe".
Ela aprenderia ali coisas práticas da vida e do serviço público, que curso nenhum poderia oferecer. Aprenderia a mensurar o peso e o valor que pode ter uma circunstância, e a compreender um pouco mais sobre as motivações humanas que fazem girar o mundo. No primeiro dia de trabalho foi acolhida por um colega de profissão que se tornou depois seu grande amigo. João Felício era um desses seres que todos gostariam de ter como irmão. Tinha um altruísmo contagiante e uma humildade infinita. Tinha um problema: não sabia dizer não a ninguém, e às vezes se atrapalhava com isso. Vinha todos os dias de Mangaí para trabalhar e voltava à tardinha no ônibus da prefeitura que levava os estudantes que faziam curso superior por lá. Era um pai dedicado e ótimo conselheiro. Sabia absolutamente tudo sobre política e atualidades. Sua memória era a de um elefante, e só saía do sério quando o seu time do coração, o Cruzeiro, perdia o jogo. Tirava as mãos da boca do paciente para gesticular indignado: "mas você viu, né fulano? aquele jogador lá, que o técnico colocou não era pra ter colocado não, aquele cara não vale uma guimba de Derby..." . Ela adorava aquele amigo. A vida tinha dado uma guinada tão brusca que ela não teve muito tempo para pensar se Alan sentia ou não a sua falta. Um mês depois, foi o aniversário dele, e quando ela telefonou, o encontrou meio tristinho. Ele falava de um jeito que ela só pôde interpretar como a voz de alguém que sentia imensa saudade. A conversa foi longa, ela tinha coisas inusitadas e engraçadas a contar. Na despedida ele disse a ela que no mês seguinte estaria de férias e que queria ir ao seu encontro em Mangaí. Ela sentiu aquele soprinho de ar que se sente quando o peito fica leve de feliz, e por incrível que pareceu, aquele mês passou mais rápido para ela do que todos os outros...


Continua... no próximo Capítulo!

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