Thursday, August 05, 2010

Capitulo OITO...

Nereide era a moça que fazia os trabalhos domésticos no apartamento dela. Sabia fazer uma sopinha de feijão deliciosa e trocava as consoantes ao falar. Ela admirou-se: " vixi! mar é lindo esse brinco, visse?". E ela ganhou os brincos. O dia começava as cinco e meia da manhã, porque ninguém aguentava ficar na cama com o sol que já começava a ferver às seis. Anoitecia mais cedo também. Sua irmã (Catarina) naquele ano, tinha incluído na lista de funcionários de sua empresa, um casal: Tayná ( a amiga capoeirista da irmã) e o marido dela, também capoeirista, Joni. Além disso, alguns familiares do namorado da irmã, incluindo o próprio (Alan), passaram a trabalhar com ela, trazendo grande proximidade e amizade entre todo mundo por ali. E o namoro ia durando. Catarina era desde sempre, ligada à filantropia, e incentivou a irmã a prestar serviços voluntários como dentista que era. O lugar era uma espécie de instituição mantida pelo governo do Estado, sendo ao mesmo tempo uma casa para menores aprendizes, com oficinas de vários tipos e que abrigava crianças também no período em que suas mães estavam no labor. Ela dedicava uma tarde por semana para ir até lá. Sentia-se útil, sentia-se bem. Naquela segunda-feira, pós fim de semana quase trágico de discussões ofensivas e sem sentido algum com Alan, ela resolveu ir pra lá mais cedo. Atendeu algumas crianças sem nem olhar pra elas. Sentia um misto de raiva com angústia quando algumas delas choravam só de ver a seringa, ou qualquer outro instrumento metálico se aproximando. Saía um, entrava o próximo: "próximo!". Entrou um menino, que devia ter uns seis anos. Ela sabia reconhecer a idade pela presença ou não, de dentes de leite em determinadas posições na boca das crianças. Ele veio assustado, na verdade, em pânico, sua palidez era visível. Quando ele se sentou na cadeira, botou os olhos enormes nela e não tirou mais. Ela o percebeu. A blusa dele tinha vários furinhos e o calção era o que alguém tinha dado, porque era tão largo que estava amarrado na cintura com uma corda. Já os chinelos eram pequenos demais, deixavam quase a metade do pé pra fora. O cabelinho estava sujo e ele permanecia mudo. Ela parou por um instante e olhou pra ele. Ele continuava imóvel, sem piscar, agarrado ao braço da cadeira, com os olhos súplices nela. Ela começou a sentir um profundo desagrado de si mesma. Sentiu-se pequena e completamente estúpida. Não conseguiu agir. Disse à sua auxiliar que não se sentia bem e precisava ir embora. E foi. Chorou pelo trajeto inteiro até sua casa, e depois se aliviou pelo sorrisão banguelo do sobrinho-afilhado a chamando para lutar de espada com ele. Ele não gostava de beijos, mas naquele dia ela lutou com ele até conseguir um...



Continua... no próximo Capítulo!

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