Era feriado. Mas o prefeito de Margem Grande fez questão da presença de todo mundo para as comemorações do dia do trabalho, com direito a discurso e promessas recheadas de superlativos. Depois do almoço, ela rumaria para o aeroporto na capital, para buscar Alan. Caprichou tanto na produçao naquele dia que Zé -limão não se conteve e lhe fez o elogio mais simples e mais poético de toda a sua vida. Zé-limão era uma espécie de fiel escudeiro do prefeito. Um velhinho simpático que ficava horas confeccionando o próprio cigarrinho de palha, enquanto ouvia e contava "causos". Servia ao mesmo tempo de office-boy da prefeitura e "resolvedor" de pendências extra-gabinete, do tipo ir à casa de alguém para avisar sobre o horário em que partiria a carona que a pessoa tinha solicitado para Brasilia no dia seguinte. Todo mundo já sabia. Onde estivesse estacionada a bicicleta de Zé-limão, durante o dia, ali estaria sendo resolvido algum assunto alternativo, mas importante para a municipalidade. Ele estava sentado no seu banquinho de sempre na porta da prefeitura, quando ela passou e riu pra ele: "oi, zé". Ele, vendo alguém se aproximar, pegou no braço dela fazendo com que ela parasse e desse uma pequena voltinha, dizendo com o sotaque típico, enquanto mostrava ao outro que passava: "óia, Pedrão, ela parece um pingo d'água na fôia do inhame". O outro riu, e falou que parecia mesmo. Só ela nao entendeu do que se tratava, mas ficou com vergonha de perguntar na hora. Só sabia que ele seria incapaz de ser desagradável. Ademais, um pingo d'água também era tão inofensivo quanto ele próprio. Mais à frente encontrou o Nélio da Tininha e perguntou pra ele, já que ele era um velho conhecido da familia que morava lá. Nélio então perguntou se ela ja tinha visto uma folha de inhame, e explicou que a folha tinha uma textura tal que uma gota d'água quando em cima dela brilhava tanto quanto um cristal. Ah, que bonito, Zé-limão era poeta. Além dele, ela conheceu naquele lugar alguns outros exemplares da simplicidade humana, que a fizeram repensar suas próprias mazelas e exercitar sua sensibilidade. Como o senhor idoso que vinha de uma fazenda, um pouco mais distante e recusava-se a ser atendido por qualquer outra pessoa que nao fosse ela, porque ela tinha tido um cuidado especial com ele da primeira vez que o atendeu. E todas as vezes em agradecimento, àquilo que ele por simplicidade, achava que não era parte da obrigação dela como profissional, levava doces e queijos de sua produção caseira para presenteá-la. Era tudo muito gostoso e temperado com a sutileza do campo e a humildade do velho homem. E tinha também as crianças. Algumas que precisavam mais de colo do que de restaurações de amálgama. E tinha todas aquelas pessoas. Naquela tarde, ela dirigiu os cento e poucos quilômetros que separavam Margem Grande da capital do país e encontrou Alan, oferecendo-lhe o afago do qual ele tinha, pela primeira vez manifestado verbalmente ter sentido falta. Foram direto pra fazenda da irmã Carolina, onde ela tinha passado a morar durante os dias da semana que ficava em Margem Grande para trabalhar. Depois foram a Mangaí. Mangaí tinha no máximo duas bancas de jornal, três livrarias e duas joalherias. E foi numa delas que eles entraram, no dia seguinte sem contar a ninguém, para encomendar as alianças que eles colocaram na mão direita um do outro, sem cerimônia alguma ou estranhamento. Precisavam diminuir a distância e estar comprometidos de uma forma real e suficientemente normal. E avisaram para todo mundo depois, que tinham ficado noivos...
Sunday, August 15, 2010
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