Saturday, August 28, 2010
Capítulo DEZESSETE...
Cora era péssima dona de casa. Sua preguiça para a organização doméstica irritava Alan de modo bem aparente. Ele não entendia quando ela preferia dançar a arrumar o quarto, por exemplo. Quando muito raramente, ela se metia a limpar a casa, ou a lavar a louça do dia anterior que dormira suja na pia, não o podia fazer sem ouvir música. Aí o que era para ser uma tarefa odiosa mas rápida, se tornava uma viagem teatral demorada e mal feita, porque se a música fosse dançante, não tinha jeito. Ela parava tudo no meio para dançar pela casa afora com a vassoura, o rôdo, os panos de prato ou o balde nas mãos. E estava fora de seu controle, o que Alan interpretava como frescura e má-vontade. Sim, a interpretação era um problema a ser trabalhado entre os dois, mas ela preferia o conforto da paz de não discutirem aquela profusão de diferenças embutidas em cada gosto ou gesto. Cora detestava a sensação de se sentir só. Para ela, a solidão era como estar completamente solta no meio do nada e sem a chance de se inspirar. Sentia necessidade profunda de alguém que segurasse sempre a outra ponta de uma corda invisível, que a pudesse salvar quando fosse preciso. Sentia-se grata a Alan quando ele a ajudava cuidar da desastrosa e invencível batalha que travava com sua própria enfermidade. Cora ia a pé para o trabalho e passou a dar aulas de saúde coletiva à noite, para incrementar o orçamento. Gostava de viajar para supervisionar os programas de saúde dos pequenos municípios com sua equipe de trabalho. Cada lugar um problema, cada prefeito uma solução. Tinha iniciado também novos estudos, desta vez em Brasília, e passou a frequentar o órgão máximo da saúde pública do país. Alan tinha terminado seu curso e seus pais tinham vindo para a capital. Alan quis logo tentar algo mais promissor na profissão e conseguiu por lá, sem muito esforço, um trabalho numa grande empresa. Passava os dias em Brasilia trabalhando e retornava para Mangaí nos fins de semana. Cora tinha passado também a pensar em ampliar seu escopo e quis alçar um vôo profissional maior. Já tinha acertado trocar seu vínculo estadual pelo federal como consultora contratada do Ministério da Saúde, quando recebeu a notícia do resultado final do concurso público federal que tinha tentado. Estava num restaurante self-service com as colegas do curso quando Alan ligou para lhe dar a noticia de que havia passado. Começou a chorar perto das saladas, aquele chôro do alívio no peito e só conseguiu parar lá na frente, nas batatas. Sua amiga percebeu e levantou-se da mesa para abraçá-la, e o restaurante inteiro soube que aquele chôro era só a manifestação típica das mulheres quando se sentem extremamente realizadas, e portanto muito felizes...
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1 comment:
Obrigado, bom trabalho! Este foi o material que eu tinha que ter.
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