No dia em que Catarina anunciou que a empresa se mudaria dali a alguns meses para outra capital, a equipe inteira topou ir junto. A familia de Alan, compunha quase que totalmente a equipe, portanto ela, a irmã, indubitavelmente, iria também. Não sabia ao certo o que faria lá, mas encaixotou sem medo, todos os seus pertences, como se estivesse virando uma outra página. Tinha se esquecido um pouco daquela sua mania de escrever, que um dia a tinha feito ganhar uma bola de plástico como prêmio do primeiro lugar num concurso de redação da segunda série do ensino fundamental. Naqueles ultimos anos tinha escrito, no máximo, duas ou três cartas e mesmo assim, sem nenhuma reticência poética. Uma para a amiga que frequentava com ela os ensaios da banda de blues do antigo namorado em Bela Montanha e outras respondendo à sobrinha Gisele, que lhe escrevera angustiada por estar longe da familia enquanto fazia faculdade de fonoaudiologia em uma outra cidade que não era a sua. Ela adorava dizer que Gisele era um exemplar lindíssimo da familia Floreira dos Santos. Era uma geminiana dócil e linda. Tão linda que dispensava qualquer adereço. Gisele não precisava nem de maquiagem para iluminar o rosto, como faziam todas as outras mulheres. O rosto dela já tinha aquela claridade de menina bonita. Fora estas pouquíssimas cartas ela não havia produzido absolutamente nada. Talvez lhe faltasse inspiração, mas muito menos que o necessário sossêgo na alma para escrever poesia. O prazer da leitura, pelo menos esse, ela não tinha abandonado. Leu de Garcia Marques a Roberto Torero, e mais tudo o que pôde, durante sua estada aos pés da morada de Iemanjá. A cidade para onde estavam se mudando também era no litoral, só que um pouco mais barulhenta e um tanto mais mística, e era onde o carnaval durava mais do que se podia imaginar, sob as bênçãos de Jorge Amado, Mãe Menininha do Cantois e Carlinhos Brow, com seu cocar de índio, em cima do trio elétrico. Mas Redentor era uma cidade que tinha lá seus encantos e seus odores concretos, como não? Catarina começara um grande desafio a partir dali, com previsão de vendavais e tormentas. Antes disso, e sem que ela tivesse planejado, a outra irmã Carolina sugeriu que ela voltasse para perto dos seus pais, que moravam desde sempre em Mangaí, onde tinha nascido, pois havia a oportunidade de um bom trabalho no setor público, já que ela tinha reclamado que andava mesmo sem nenhuma perspectiva profissional naquela nova cidade. E ela decidiu que voltaria, pensando em sugerir a Alan que fossem juntos. E eles por fim conversaram sobre o assunto mais importante de todos, dentro do tempo em que compartilharam momentos bons e ruins. O desfecho não foi o esperado que a fizesse sorrir. Diante da hesitação de Alan, ela entendeu que não caberia insistir, mas muito menos mudar de idéia. Instintivamente sabia que tinha que ir, com ele ou sem ele. Marcou a passagem e os dois se despediram algum tempo depois no aeroporto, num abraço longo, mas calmo, porque havia uma sensação estranha de que seus corações ainda estavam de certa forma alinhavados. E descobriram depois que estavam mesmo...
Continua... no próximo Capítulo!
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