Sunday, August 29, 2010

Segunda parte... Capítulo DEZOITO...

Cora e Alan, ambos motivados e felizes da vida, trataram de se ajeitar na nova cidade. No fundo, Cora já tinha uma idéia de que não ficaria para sempre em sua cidade natal. Brasília, esta cidade real, concretamente fincada no meio do cerrado rico em ipês de todas as cores e um céu de azul profundo famoso, estava bem próximo do que ela tinha desejado desde que deixara a belíssima Cidade do Sol. Foram morar em um bairro tranquilo, num apartamento meio velho, no terceiro andar de um prédio só de escadas, mas com espaço suficiente para o que tinham acumulado como casal nos ultimos anos. Na primeira semana, resolveu dar uma volta de reconhecimento pelas redondezas e encontrou um lugar ótimo para comprar frutas e verduras. Esqueceu-se da ausência de elevadores que teria que enfrentar e resolveu levar duas sacolas de laranjas para casa. Lá foi ela, subindo, e no final do quinto lance das escadas uma das sacolinhas se abriu e lá se foi um bando de laranjas rolando e saltitando fora de seu controle. Ela parou suspirando e sentou-se, e de repente as laranjas pareciam caçoar dela, rindo, desembestadas, trombando umas nas outras, pulando os degraus meio encardidos escada abaixo. Observou, e caiu na risada junto com elas. Ela se lembrou de que Brígida já anunciara em seu mapa astral, anos atrás, algumas coisas que só agora começavam a lhe fazer sentido. Coisas do tipo: "mudanças domésticas", "futuro profissional em grandes estruturas" "importantes descobertas"e demais especulações filosóficas e arrítmicas. O ano passou rápido. Catarina também veio de mudança, deixando a cidade de Redentor para trás. Brasília era real. Brasília era surreal. Uma arquitetura que se fazia referência internacional e uma população tão misturada e diversa de culturas como uma colcha de retalhos bem alegre e colorida. No novo trabalho ela se adaptou rápido, teve sorte. Fora lotada num setor onde ela poderia se manter conectada com os ideais já aprimorados de construção de soluções mais solidárias para o contexto da saúde, e dessa vez num nível muito mais abrangente. Partindo-se do início de tudo, lá no pequeno município, o seu universo realmente se expandira. Cora passou uma boa temporada fora para fazer um curso de formação e na volta, aguardou as formalidades para o início do novo trabalho. Com tempo de sobra, leu e escreveu algumas coisinhas fuleiras, só para provar que ainda podia e que ainda estava em plena forma. Mas tempo de sobra para ela, depois de tanto movimento anterior, significava espaço para elucubrações e variações sentimentais em grande escala. Algumas mudanças no comportamento de Alan a deixaram em dúvida se ele havia realmente se encontrado emocionalmente e profissionalmente ou se ainda procurava razões ou qualquer outra coisa diferente do que ela achava que ele tinha vindo buscar. Como ele não gostava de falar abertamente sobre o assunto, ela mantinha sua desconfiança, e sua imaginação e senso crítico fluíam de maneira equivocada ou não, a depender do seu ciclo ovulatório, assim como o fazem a grande maioria da espécie do gênero feminino. Desde o primeiro dia de trabalho Cora descobrira uma colega de trabalho especial, Isabela, de astral e maturidade incríveis. Tiveram uma empatia mútua e se tornaram depois grandes amigas. E foi Isabela quem passou a compartilhar todas as suas confidências e a apoiá-la no ano seguinte, que tinha previsão de ser emocionalmente muitíssimo complicado...

Saturday, August 28, 2010

Capítulo DEZESSETE...

Cora era péssima dona de casa. Sua preguiça para a organização doméstica irritava Alan de modo bem aparente. Ele não entendia quando ela preferia dançar a arrumar o quarto, por exemplo. Quando muito raramente, ela se metia a limpar a casa, ou a lavar a louça do dia anterior que dormira suja na pia, não o podia fazer sem ouvir música. Aí o que era para ser uma tarefa odiosa mas rápida, se tornava uma viagem teatral demorada e mal feita, porque se a música fosse dançante, não tinha jeito. Ela parava tudo no meio para dançar pela casa afora com a vassoura, o rôdo, os panos de prato ou o balde nas mãos. E estava fora de seu controle, o que Alan interpretava como frescura e má-vontade. Sim, a interpretação era um problema a ser trabalhado entre os dois, mas ela preferia o conforto da paz de não discutirem aquela profusão de diferenças embutidas em cada gosto ou gesto. Cora detestava a sensação de se sentir só. Para ela, a solidão era como estar completamente solta no meio do nada e sem a chance de se inspirar. Sentia necessidade profunda de alguém que segurasse sempre a outra ponta de uma corda invisível, que a pudesse salvar quando fosse preciso. Sentia-se grata a Alan quando ele a ajudava cuidar da desastrosa e invencível batalha que travava com sua própria enfermidade. Cora ia a pé para o trabalho e passou a dar aulas de saúde coletiva à noite, para incrementar o orçamento. Gostava de viajar para supervisionar os programas de saúde dos pequenos municípios com sua equipe de trabalho. Cada lugar um problema, cada prefeito uma solução. Tinha iniciado também novos estudos, desta vez em Brasília, e passou a frequentar o órgão máximo da saúde pública do país. Alan tinha terminado seu curso e seus pais tinham vindo para a capital. Alan quis logo tentar algo mais promissor na profissão e conseguiu por lá, sem muito esforço, um trabalho numa grande empresa. Passava os dias em Brasilia trabalhando e retornava para Mangaí nos fins de semana. Cora tinha passado também a pensar em ampliar seu escopo e quis alçar um vôo profissional maior. Já tinha acertado trocar seu vínculo estadual pelo federal como consultora contratada do Ministério da Saúde, quando recebeu a notícia do resultado final do concurso público federal que tinha tentado. Estava num restaurante self-service com as colegas do curso quando Alan ligou para lhe dar a noticia de que havia passado. Começou a chorar perto das saladas, aquele chôro do alívio no peito e só conseguiu parar lá na frente, nas batatas. Sua amiga percebeu e levantou-se da mesa para abraçá-la, e o restaurante inteiro soube que aquele chôro era só a manifestação típica das mulheres quando se sentem extremamente realizadas, e portanto muito felizes...

Friday, August 27, 2010

Capítulo DEZESSEIS...

Sim, ela era ao mesmo tempo uma romântica incorrigível e uma passional sem-noção. O filme "As Pontes de Madison" era o seu referencial máximo de permissão para sentir emoções ultra-secretas e amar sem culpa. Tinha sonhos estranhíssimos, inventava situações só para seu consumo e por isso mentia. Lia Florbela Espanca e Carlos Drommond de Andrade a qualquer hora do dia, caía no chôro com seu sobrinho Caetano quando iam aos espetáculos do Grupo Corpo, arrepiava-se quando ouvia um solo de trompete, derretia-se quando alguém tocava um instrumento musical e gostava da ciência astrológica para fins supersticiosos e futurísticos mais que duvidosos. Acostumou-se rápido à nova rotina, mas não se acostumava nem com o ritmo da cidade nem com o das pessoas. Tinha reencontrado pouquíssimas amigas, da infância e adolescência e cada uma vivia um momento diferente, já com filhos à tira-colo. Alan preenchia seus espaços com o trabalho e a faculdade e ela com as viagens quase que semanais à trabalho. Eles não tinham muito tempo para balanços do relacionamento ou coisa parecida, e não havia nada de especial ou promessa de novidade naquele horizonte curto . Ela carregava o nome de sua mãe no seu, só que o seu era composto: Clara Maria. Quando Cristiana, filha de Carolina tinha uns dois anos e falava tudo enroladinho, ela inventou o seu apelido: CORA. Como não conseguia falar tia Clara, ela falava tia Cora, sem saber que sua tia diabética colecionava, de propósito, poemas da poetisa-doceira goiana mais fofinha de todo o universo:

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo!!!



Cora Coralina

Saturday, August 21, 2010

Capítulo QUINZE...

Foi o Dr. Benício Cadotti quem medicou sua mãe. Clara já tinha tido transtornos anteriores e estava há muito tempo sem os episódios agudos. Dr. Benício era muitíssimo paciente e tecnicamente bastante graduado, e dessa vez, o diagnóstico e o tratamento sob sua batuta tinham sido ultra-adequados. Mesmo com o apoio providencial de Alan, nossa protagonista não sabia lidar calmamente com a situação. Nessa época, ainda não era claro para ela que sua dificuldade dizia respeito a algumas coisas que não conseguia suportar em si mesma. Ligou para a irmã Catarina, chorou o quanto pôde, e a deixou preocupada. Catarina não pensou muito, e pegou logo um avião de Redentor para Bela Montanha. Algumas semanas depois de tratamento, as coisas foram voltando ao normal, por uma bela conjunção de fatores, o socorro do irmão mais velho Heitor, a acolhida de Gérbera e o colo de Catarina. Explique-se: a familia Floreira dos Santos não era grande só em tamanho. Dentro de seus contornos cabiam toneladas de compreensão e solidariedade nesses momentos críticos. Vovô Tico havia se casado uma primeira vez, tinha tido nove filhos e ficado viúvo. Casou-se depois com Clara, que deu à luz mais quatro. Carolina, Catarina e Cristiano eram seus irmãos por parte de pai e mãe. Uma imensa familia. Cristiano era o mais novo, tinha uma ligação especial própria de caçula com a mãe, e pôde ajudar na reabilitação emocional dela na volta pra casa. Ele tinha voltado a morar na casa dos pais, depois de ter experimentado também a Cidade do Sol e Redentor como moradas. Com a recuperação de Clara, no final do ano havia o que comemorar e o Natal reuniria todo o pessoal de novo. Nessas ocasiões, cada um tinha um caso engraçado a contar, um prato diferente a cozinhar e no final das contas, todos tinham abraços para compartilhar. A chuva chegou, a poeira baixou, a vida seguiu. Em Margem Grande as brigas politicas continuaram e ela passou a sentir cansaço também dos deslocamentos semanais e da ausência de sossêgo para pensar em coisas mais leves. Como secretária de saúde tinha passado a frequentar as reuniões com os representantes da secretaria de saúde do Estado, e ao final de quase três anos na esfera municipal, foi convidada a fazer parte na equipe da esfera estadual. Passaria a trabalhar em Mangaí e portanto não houve nada que a fizesse pensar em não aceitar o convite. Um novo desafio. Um desafio maior ainda do que tinha sido o primeiro, a diferença é que dessa vez ela já se encontrava totalmente á vontade por estar envolvida de forma quase apaixonada pelo assunto saúde pública. Pensou também em estar mais perto de Alan, já que ele tinha dado sinais de não estar tão satisfeito sozinho na maioria do tempo, naquela cidade nada familiar, de clima sufocante e sem atrativos. Pediu as contas na prefeitura e trocou o vínculo municipal pelo estadual, no embalo de cuidar também de organizar melhor seu cotidiano e seus pensamentos. Capacitou-se ainda mais na área, e entendeu que aquilo seria por muito tempo. Não quis mais trabalhar com a clinica. Tinha deixado de lado aos poucos a profissão original, desacostumando-se daquele desenho de quatro paredes, uma auxiliar e um paciente. Tinha percebido um horizonte muito maior em suas novas experiências com coisas grandiosas ao redor e muitas obrigações a definir e a cumprir. Considerava estar realmente contribuindo para o bem-estar coletivo das pessoas da região, mesmo que as idéias carecessem sempre de um pouco mais de disposição orçamentária para serem colocadas em prática. A saúde pública era assim, somente para os românticos incorrigíveis ou, na pior das hipóteses, para os passionais sem muita noção...



Continua... no próximo capítulo!

Friday, August 20, 2010

Capítulo QUATORZE...

Ela ficou de pé. A sensação era de que iria levar uma grande bronca sobre o jogo de cintura que mantinha com os adversários politicos do prefeito. Na verdade detestava aquela eterna e insensata briga politica naquele lugar tão pequeno. E ele foi logo disparando: " Estou falando aqui com seu cunhado que você será nossa nova secretária de saúde. Eneida não é mais secretária, ela é uma traidora. Acabei de exonerá-la do cargo". Ela sentou-se, lançou para o cunhado aquele olhar de "salve-me, por favor" e ele, com uma calma de monge, só perguntou com toda a objetividade do mundo se ela achava que era capaz. O prefeito interrompeu, com o jeitão já conhecido: " Não se preocupe, converse com Silvia, e se você achar que precisa, procure um curso que ensine sobre administração municipal e legislação de saúde. Não quero mais saber de Eneida, além de traidora é uma chata de galocha, não é Roberto, o que você acha?" e Roberto repetiu a pergunta. Ela respondeu meio automaticamente que achava que tinha condições de assumir tal posto, mas que ia precisar se capacitar bastante. Ela não tinha a menor noção do que fosse uma gestão pública em nenhuma das três esferas, mas resolveu encarar assim mesmo. Saiu dali direto para a sala onde funcionava a secretaria de saúde. Silvia estava lá. Era uma servidora antiga da casa. Conhecia todos os sistemas e a burocracia inerentes ao departamento. Elas já se conheciam e quando ela contou a novidade recebeu um sorrisão. Ninguém gostava de Eneida. Ela então partiu para fazer todos os cursos possíveis e foi se adaptando ao desafio que era organizar a provisão da assistência gratuita de saúde ao povo, contando apenas com uma unidade de saúde de cuidados primários e muitas, mas muitas dores de cabeça a serem debeladas. Fez primeiro um curso à distância e depois passou a ir uma vez por mês para Bela Montanha, na escola onde tinha feito a graduação. Alguns professores da área social ainda estavam lá, e acharam muito bacana a posição que ela passara a ocupar. Nas aulas da pós-graduação havia uma liberdade e sempre tinha um exemplo concreto e por vezes engraçado de Margem Grande a compartilhar. De ambulância sem freios a mutirão de catarata, ela teve que passar a entender e a resolver. Em Bela Montanha ela se hospedava na casa da irmã mais velha, Gérbera, que vivia naquela época , a experiência de uma separação conjugal ha tempos desejada, na companhia dos filhos Caetano e Luana. Gérbera tinha um enorme talento para os detalhes e um bom gosto invejável. Era decoradora, enfeitava tudo e rezava para a Santa. Comprava flores toda semana na feira, mesmo que não houvesse motivo algum para embelezar a sala ou estivesse triste o bastante para não desejar ir até lá. Seu talento culinário também era conhecido, assim como sua risada quando o caso era realmente engraçado. Falava pouco de si mesma. Sobre suas emoções profundas, talvez só a Santa soubesse. Em agosto vovô Tico faria oitenta anos, e uma festa ótima foi preparada pra ele em Mangaí. Os filhos se reuniram, teve música ao vivo, teatro amador dos netos, fizeram um campeonato de futebol, festejaram por dois dias. Alan filmou tudo e depois editou. No movimento, ninguém, inclusive ela, reparou que sua mãe Clara não estava bem. Só no dia seguinte constataram que ela tinha passado a noite em claro e que tinha iniciado um novo episódio de adoecimento mental, posteriormente diagnosticado como catatonia. Providências tomadas, ela partiu com Alan para Bela Montanha levando sua mãe para um novo ciclo de tratamento de dias sofridos e extenuantes. Durante a viagem, cada vez que via um ipê amarelo, ela tentava fazer uma espécie de oração, porque sentia-se emocionalmente debilitada e incapaz de acolher como deveria, a própria mãe. Eram daqueles momentos delicados e difíceis. Mas Alan estava lá , e ao contrário dela, sabia rezar inteira, a prece de Cáritas...

Tuesday, August 17, 2010

Capítulo TREZE...

Quando Alan voltou pra casa dos pais no final daquela temporada com uma aliança no dedo, já tinha decidido que sua vida precisava ser recomeçada ao lado dela. Tratou de ir atrás da sua tranferência na faculdade que ainda cursava para dar continuidade aos estudos em Mangaí. Em um mês ele desembarcou de novo no JK, e dessa vez com um pouco mais de bagagem. Deixou para trás só o que sabia que não lhe caberia mais em sua nova condição de homem responsável por si mesmo, e todo o resto fluiu naturalmente. Carolina se dispôs a ajudá-los. Tinha uma empresa, a Colheita Tratores, onde ele poderia ser inserido como colaborador. Eles encontraram rápido um apartamento pequeno, que ficava em cima de uma farmácia cujos donos eram vizinhos muito simpáticos. Ela partia toda segunda-feira de manhã para Margem Grande e retornava às sextas-feiras à tarde. João Felício era seu companheiro da estrada que era esburacada e poeirenta na maior parte do trajeto. Aproveitavam para botar toda a fofoca da semana em dia, e ainda ficava faltando, porque eram só cinquenta quilômetros, afinal. Durante a semana inteira cada um se virava sozinho. Alan tinha aprendido com a mãe alguns truques culinários e teve que colocá-los em prática para se manter bem alimentado. Nos finais de semana eles cozinhavam juntos, liam o jornal no banco da pracinha, iam ao clube, assistiam a filmes alugados na locadora. Alan gostava da feira dos produtores e aprendeu a comer até os legumes dos quais ele dizia não gostar. Não havia muita coisa a se fazer em Mangaí, e as pessoas ás vezes tinham que correr atrás de seu próprio entretenimento. Para ela não havia muitas opções de leitura. Vez ou outra encontrava bons clássicos em edições de capa dura que vinham junto a alguma revista na banca. Um dia sentiu muitas saudades e escreveu uma cartinha para a sobrinha Cecília, filha de Catarina. Cecília era uma fofucha. Elaborava frases e falava melhor que a maioria dos adultos desde que começou a se entender por gente. Foi ao correio. Ela e Alan decidiram pela formalização do casamento, mas só quando os pais de Alan pudessem estar presentes, o que seria então só nas férias de janeiro. Numa tarde dessas, em Margem Grande, lá pela metade do segundo semestre, ela se dirigiu tranquilamente de branco, as barras da calça sujas da poeira incessante e o jaleco na mão, à creche municipal para começar um trabalho com as crianças. Tinha iniciado um projeto ousado que pretendia ser de promoção da saúde bucal para os pequenos, com a intensão de envolver também suas mães. Faria palestras, tentaria reverter o quadro epidemiológico precário instalado, porque continuava acreditando em mágicas soluções em saúde bucal da época de graduanda à beira da colação de grau. Ao se aproximar do trabalho naquele dia, tudo estava no lugar: as calçadas recém pintadas, os arbustos bem cuidadinhos e a placa nova no lugar. Só uma coisa lhe chamou a atenção. A bicicleta de Zé-limão estava estacionada na porta. Quando ela ia entrando deu de cara com ele saindo, totalmente esbaforido: " o prefeito tá chamanocê lá no gabinete e é urgente". Ela se assustou um pouco, mas disse que já ia. Frente ao afobamento dele, ela até pensou em pedir uma carona mas nem deu tempo, porque em segundos Zé-limão já tinha montado em sua bicicleta e descia em direção à prefeitura disparado, quase atropelando as galinhas de estimação de dona Dina, que fugiam pra rua todos os dias e voltavam quando ela chamava. Quando ela chegou ao gabinete, o cunhado Roberto, marido de Carolina, conhecido como Roberto da Colheita, aliado politico, e dono de boa parte das terras da região, tomava café com o prefeito, sentado muito confortavelmente na cadeira. E os dois a receberam para uma conversa bastante séria...

Sunday, August 15, 2010

Capítulo DOZE...

Era feriado. Mas o prefeito de Margem Grande fez questão da presença de todo mundo para as comemorações do dia do trabalho, com direito a discurso e promessas recheadas de superlativos. Depois do almoço, ela rumaria para o aeroporto na capital, para buscar Alan. Caprichou tanto na produçao naquele dia que Zé -limão não se conteve e lhe fez o elogio mais simples e mais poético de toda a sua vida. Zé-limão era uma espécie de fiel escudeiro do prefeito. Um velhinho simpático que ficava horas confeccionando o próprio cigarrinho de palha, enquanto ouvia e contava "causos". Servia ao mesmo tempo de office-boy da prefeitura e "resolvedor" de pendências extra-gabinete, do tipo ir à casa de alguém para avisar sobre o horário em que partiria a carona que a pessoa tinha solicitado para Brasilia no dia seguinte. Todo mundo já sabia. Onde estivesse estacionada a bicicleta de Zé-limão, durante o dia, ali estaria sendo resolvido algum assunto alternativo, mas importante para a municipalidade. Ele estava sentado no seu banquinho de sempre na porta da prefeitura, quando ela passou e riu pra ele: "oi, zé". Ele, vendo alguém se aproximar, pegou no braço dela fazendo com que ela parasse e desse uma pequena voltinha, dizendo com o sotaque típico, enquanto mostrava ao outro que passava: "óia, Pedrão, ela parece um pingo d'água na fôia do inhame". O outro riu, e falou que parecia mesmo. Só ela nao entendeu do que se tratava, mas ficou com vergonha de perguntar na hora. Só sabia que ele seria incapaz de ser desagradável. Ademais, um pingo d'água também era tão inofensivo quanto ele próprio. Mais à frente encontrou o Nélio da Tininha e perguntou pra ele, já que ele era um velho conhecido da familia que morava lá. Nélio então perguntou se ela ja tinha visto uma folha de inhame, e explicou que a folha tinha uma textura tal que uma gota d'água quando em cima dela brilhava tanto quanto um cristal. Ah, que bonito, Zé-limão era poeta. Além dele, ela conheceu naquele lugar alguns outros exemplares da simplicidade humana, que a fizeram repensar suas próprias mazelas e exercitar sua sensibilidade. Como o senhor idoso que vinha de uma fazenda, um pouco mais distante e recusava-se a ser atendido por qualquer outra pessoa que nao fosse ela, porque ela tinha tido um cuidado especial com ele da primeira vez que o atendeu. E todas as vezes em agradecimento, àquilo que ele por simplicidade, achava que não era parte da obrigação dela como profissional, levava doces e queijos de sua produção caseira para presenteá-la. Era tudo muito gostoso e temperado com a sutileza do campo e a humildade do velho homem. E tinha também as crianças. Algumas que precisavam mais de colo do que de restaurações de amálgama. E tinha todas aquelas pessoas. Naquela tarde, ela dirigiu os cento e poucos quilômetros que separavam Margem Grande da capital do país e encontrou Alan, oferecendo-lhe o afago do qual ele tinha, pela primeira vez manifestado verbalmente ter sentido falta. Foram direto pra fazenda da irmã Carolina, onde ela tinha passado a morar durante os dias da semana que ficava em Margem Grande para trabalhar. Depois foram a Mangaí. Mangaí tinha no máximo duas bancas de jornal, três livrarias e duas joalherias. E foi numa delas que eles entraram, no dia seguinte sem contar a ninguém, para encomendar as alianças que eles colocaram na mão direita um do outro, sem cerimônia alguma ou estranhamento. Precisavam diminuir a distância e estar comprometidos de uma forma real e suficientemente normal. E avisaram para todo mundo depois, que tinham ficado noivos...

Thursday, August 12, 2010

Capítulo ONZE...

Foi seu pai quem a buscou no aeroporto JK. O patriarca da familia Floreira dos Santos, Vovô Tico, como era carinhosamente chamado pelos netos e bisnetos, tinha alugado o táxi do seu amigo em Mangaí, e viajado alguns quilômetros para ir buscá-la, imaginando certeiramente que ela traria consigo uma tralha gigantesca, já que vinha de mudança. Vovô Tico já beirava os oitenta anos, mas ainda tinha disposição para mais uma coleção de décadas. O gesto dele lhe trouxe um conforto emocional maior até do que o abraço que ele lhe deu no desembarque. Na viagem, reparou no céu que estava azul demais, enquanto ouvia a conversa animada do simpático motorista com seu pai. No final das frases ele dizia: " o senhor não acha, seu Tico?" E ele respondia: " pois não é?". Na chegada, sua mãe Clara, a esperava com a mesma paciência e resignação, e as pouquíssimas palavras de sempre. Tinha feito pão de queijo, e o café e o suco de maracujá, sem açúcar. Ela não quis admitir de cara, mas não reconhecia mais seu antigo quarto como seu. Acomodou-se, mas não quis mexer em muitas coisas no primeiro dia, preferiu ir ver a irmã e os sobrinhos. Na semana seguinte teria que se apresentar para o novo trabalho na prefeitura da cidade de Margem Grande, antigo distrito do município de Mangaí, distante cinquenta quilômetros. Margem Grande era uma cidade minúscula onde um espirro de alguém na praça da prefeitura às dez horas da noite podia ser ouvido por todos os habitantes do lugar. O posto de saúde era arrumadinho, e o novo prefeito estava cheio de projetos para o seu mandato. A politica do lugar era ferrenha. O adversário politico era um inimigo e ponto final. Um dia o prefeito a chamou para saber porque ela tinha solicitado à Secretaria de Saúde que comprasse um tipo de anestesia mais cara.
" é porque estamos com alguns pacientes cardíacos e hipertensos que não podem ser anestesiados com vasoconstritor" ela respondeu.
" Ah é? e quem são?" perguntou o prefeito, já que conhecia até quem ainda estava por nascer.
"Olha prefeito, tem o Seu Zé Mundin, a dona Nena do Tião, a esposa do João das abelhas, e também o seu Nico leiteiro e a Solange do salão", ela disse. E o prefeito tratou logo de fazer piada, pois eram todos adversários politicos:
"Ah, mas esses aí você não precisa anestesiar não, viu? hehehe".
Ela aprenderia ali coisas práticas da vida e do serviço público, que curso nenhum poderia oferecer. Aprenderia a mensurar o peso e o valor que pode ter uma circunstância, e a compreender um pouco mais sobre as motivações humanas que fazem girar o mundo. No primeiro dia de trabalho foi acolhida por um colega de profissão que se tornou depois seu grande amigo. João Felício era um desses seres que todos gostariam de ter como irmão. Tinha um altruísmo contagiante e uma humildade infinita. Tinha um problema: não sabia dizer não a ninguém, e às vezes se atrapalhava com isso. Vinha todos os dias de Mangaí para trabalhar e voltava à tardinha no ônibus da prefeitura que levava os estudantes que faziam curso superior por lá. Era um pai dedicado e ótimo conselheiro. Sabia absolutamente tudo sobre política e atualidades. Sua memória era a de um elefante, e só saía do sério quando o seu time do coração, o Cruzeiro, perdia o jogo. Tirava as mãos da boca do paciente para gesticular indignado: "mas você viu, né fulano? aquele jogador lá, que o técnico colocou não era pra ter colocado não, aquele cara não vale uma guimba de Derby..." . Ela adorava aquele amigo. A vida tinha dado uma guinada tão brusca que ela não teve muito tempo para pensar se Alan sentia ou não a sua falta. Um mês depois, foi o aniversário dele, e quando ela telefonou, o encontrou meio tristinho. Ele falava de um jeito que ela só pôde interpretar como a voz de alguém que sentia imensa saudade. A conversa foi longa, ela tinha coisas inusitadas e engraçadas a contar. Na despedida ele disse a ela que no mês seguinte estaria de férias e que queria ir ao seu encontro em Mangaí. Ela sentiu aquele soprinho de ar que se sente quando o peito fica leve de feliz, e por incrível que pareceu, aquele mês passou mais rápido para ela do que todos os outros...


Continua... no próximo Capítulo!

Wednesday, August 11, 2010

Capítulo DEZ...

No dia em que Catarina anunciou que a empresa se mudaria dali a alguns meses para outra capital, a equipe inteira topou ir junto. A familia de Alan, compunha quase que totalmente a equipe, portanto ela, a irmã, indubitavelmente, iria também. Não sabia ao certo o que faria lá, mas encaixotou sem medo, todos os seus pertences, como se estivesse virando uma outra página. Tinha se esquecido um pouco daquela sua mania de escrever, que um dia a tinha feito ganhar uma bola de plástico como prêmio do primeiro lugar num concurso de redação da segunda série do ensino fundamental. Naqueles ultimos anos tinha escrito, no máximo, duas ou três cartas e mesmo assim, sem nenhuma reticência poética. Uma para a amiga que frequentava com ela os ensaios da banda de blues do antigo namorado em Bela Montanha e outras respondendo à sobrinha Gisele, que lhe escrevera angustiada por estar longe da familia enquanto fazia faculdade de fonoaudiologia em uma outra cidade que não era a sua. Ela adorava dizer que Gisele era um exemplar lindíssimo da familia Floreira dos Santos. Era uma geminiana dócil e linda. Tão linda que dispensava qualquer adereço. Gisele não precisava nem de maquiagem para iluminar o rosto, como faziam todas as outras mulheres. O rosto dela já tinha aquela claridade de menina bonita. Fora estas pouquíssimas cartas ela não havia produzido absolutamente nada. Talvez lhe faltasse inspiração, mas muito menos que o necessário sossêgo na alma para escrever poesia. O prazer da leitura, pelo menos esse, ela não tinha abandonado. Leu de Garcia Marques a Roberto Torero, e mais tudo o que pôde, durante sua estada aos pés da morada de Iemanjá. A cidade para onde estavam se mudando também era no litoral, só que um pouco mais barulhenta e um tanto mais mística, e era onde o carnaval durava mais do que se podia imaginar, sob as bênçãos de Jorge Amado, Mãe Menininha do Cantois e Carlinhos Brow, com seu cocar de índio, em cima do trio elétrico. Mas Redentor era uma cidade que tinha lá seus encantos e seus odores concretos, como não? Catarina começara um grande desafio a partir dali, com previsão de vendavais e tormentas. Antes disso, e sem que ela tivesse planejado, a outra irmã Carolina sugeriu que ela voltasse para perto dos seus pais, que moravam desde sempre em Mangaí, onde tinha nascido, pois havia a oportunidade de um bom trabalho no setor público, já que ela tinha reclamado que andava mesmo sem nenhuma perspectiva profissional naquela nova cidade. E ela decidiu que voltaria, pensando em sugerir a Alan que fossem juntos. E eles por fim conversaram sobre o assunto mais importante de todos, dentro do tempo em que compartilharam momentos bons e ruins. O desfecho não foi o esperado que a fizesse sorrir. Diante da hesitação de Alan, ela entendeu que não caberia insistir, mas muito menos mudar de idéia. Instintivamente sabia que tinha que ir, com ele ou sem ele. Marcou a passagem e os dois se despediram algum tempo depois no aeroporto, num abraço longo, mas calmo, porque havia uma sensação estranha de que seus corações ainda estavam de certa forma alinhavados. E descobriram depois que estavam mesmo...



Continua... no próximo Capítulo!

Tuesday, August 10, 2010

Capítulo NOVE...

Laila era a sobrinha mais velha, que por um período curto morou com ela na Cidade do Sol. Também estava à procura de algo entre paz de espírito e recomeço, enquanto escrevia sua dissertaçao de mestrado em cinema e se recompunha de uma separaçao sem volta. Catarina deu logo um jeito nas coisas, e conseguiu um trabalho para ela. A alta temporada não dava trégua a quem trabalhava na aviação. Todos, incluindo Alan, mal tinham tempo para namorar. Mas o namoro ia durando. Foi Laila quem sugeriu a ela encomendar uma revolução solar para Brígida. Brígida era uma astróloga pra lá de bacana, velha conhecida, da cidade de Bela Montanha de onde ela tinha vindo e que fazia além do mapa astral, a chamada revolução solar, que era uma síntese de previsões importantes para as pessoas no período entre um aniversário e outro. Assim ela fez. Encomendou o negócio, para saber o que mais poderia acontecer naquele ano, além daquele verão que insistia em ser eterno e pungente. Um dia, depois do trabalho, foram as duas assistir à estréia do seriado de autoria de Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida. Se acabaram de rir. Choraram de tanto rir, pelo recado dado por João Grilo e Xicó. Por um instante parecia que a vida era mesmo muito engraçada e que nao havia motivo para nenhum tipo de mágoa escaldada ou para pensar que a busca da tal felicidade fosse um processo assim tão custoso. Laila ficou pouco tempo. Preferiu voltar. Pensou haver um outro resgate a ser concluído em terra natal. Mal sabia ela, que tempos depois voltaria para conhecer uma outra vida e um grande amor, muito próximos dali. Tinha a determinaçao dos escorpiões. Gostava de ver o sol se afogar todos os dias no mar, no final da tarde, porque tinha certeza de que ele renasceria inteirinho em todas as manhãs seguintes. Algumas semanas depois de sua partida, o carteiro colocou na caixinha uma correspondência vinda de Bela Montanha. Não era ela. A remetente era Brígida, informando na revoluçao solar que naquele ano os astros apontavam para um céu de muitas mudanças. Mudanças bastante expressivas e ajustes bastante delicados...




Continua... no próximo Capitulo

Thursday, August 05, 2010

Capitulo OITO...

Nereide era a moça que fazia os trabalhos domésticos no apartamento dela. Sabia fazer uma sopinha de feijão deliciosa e trocava as consoantes ao falar. Ela admirou-se: " vixi! mar é lindo esse brinco, visse?". E ela ganhou os brincos. O dia começava as cinco e meia da manhã, porque ninguém aguentava ficar na cama com o sol que já começava a ferver às seis. Anoitecia mais cedo também. Sua irmã (Catarina) naquele ano, tinha incluído na lista de funcionários de sua empresa, um casal: Tayná ( a amiga capoeirista da irmã) e o marido dela, também capoeirista, Joni. Além disso, alguns familiares do namorado da irmã, incluindo o próprio (Alan), passaram a trabalhar com ela, trazendo grande proximidade e amizade entre todo mundo por ali. E o namoro ia durando. Catarina era desde sempre, ligada à filantropia, e incentivou a irmã a prestar serviços voluntários como dentista que era. O lugar era uma espécie de instituição mantida pelo governo do Estado, sendo ao mesmo tempo uma casa para menores aprendizes, com oficinas de vários tipos e que abrigava crianças também no período em que suas mães estavam no labor. Ela dedicava uma tarde por semana para ir até lá. Sentia-se útil, sentia-se bem. Naquela segunda-feira, pós fim de semana quase trágico de discussões ofensivas e sem sentido algum com Alan, ela resolveu ir pra lá mais cedo. Atendeu algumas crianças sem nem olhar pra elas. Sentia um misto de raiva com angústia quando algumas delas choravam só de ver a seringa, ou qualquer outro instrumento metálico se aproximando. Saía um, entrava o próximo: "próximo!". Entrou um menino, que devia ter uns seis anos. Ela sabia reconhecer a idade pela presença ou não, de dentes de leite em determinadas posições na boca das crianças. Ele veio assustado, na verdade, em pânico, sua palidez era visível. Quando ele se sentou na cadeira, botou os olhos enormes nela e não tirou mais. Ela o percebeu. A blusa dele tinha vários furinhos e o calção era o que alguém tinha dado, porque era tão largo que estava amarrado na cintura com uma corda. Já os chinelos eram pequenos demais, deixavam quase a metade do pé pra fora. O cabelinho estava sujo e ele permanecia mudo. Ela parou por um instante e olhou pra ele. Ele continuava imóvel, sem piscar, agarrado ao braço da cadeira, com os olhos súplices nela. Ela começou a sentir um profundo desagrado de si mesma. Sentiu-se pequena e completamente estúpida. Não conseguiu agir. Disse à sua auxiliar que não se sentia bem e precisava ir embora. E foi. Chorou pelo trajeto inteiro até sua casa, e depois se aliviou pelo sorrisão banguelo do sobrinho-afilhado a chamando para lutar de espada com ele. Ele não gostava de beijos, mas naquele dia ela lutou com ele até conseguir um...



Continua... no próximo Capítulo!

Monday, August 02, 2010

Capítulo SETE...

Um namoro? sim, engataram um namoro. Eles moravam um pouco distantes um do outro, mas nos fins de semana, principalmente nos que davam praia, havia o desejo. Eram diferentes. Talvez uma versão alternativa para "Eduardo e Mônica", só que com menos leveza. Na verdade, havia bastante tempo que ela não andava se importando muito com suas manias não satisfeitas. Não que não houvesse cumplicidade. Seus corpos às vezes pareciam imantados. Mas havia também uma certa distância subjetiva, mas que ela decidiu percorrer de qualquer jeito, sob o risco de ter que resolver tudo depois. Ele trouxe a possibilidade da diversão e um começo sem atropelos. Ela o enxergava alegre, na maioria das vezes, até que um dia o descobriu profundamente angustiado e absorto numa nuvem densa demais para ser suportada sozinho. Decidiu compartilhar. Ele, numa situação familiar delicada, ela numa situação individual propensa a todo tipo de saudade. A irmã fazia tudo por ela, desde carregá-la para todas as festas do babado da cidade, até cuidar de ensinar a cozinheira que não deveria colocar açúcar em todas as coisas. A irmã vivia um momento super astral e promissor naquela cidade, e tentava contagiar todo mundo. E ela conseguia. Certa vez, o cunhado viajando, foram as duas, para uma festa à fantasia, com direito a uns drinks estupendos e tanta diversão, que no dia seguinte não se lembrava nem de como a irmã a tinha levado pra casa. Por sorte, podia contar com a compreensão do cunhado. Um dia, depois de vê-la ao telefone com ar de proposta, a irmã quis saber: "... ah é?, e quem é ele?". E quando ela contou, ouviu só um "humm", de volta, porque era meio avessa a julgamentos antecipados. O namoro, ora ia bem, ora ia tão mal que não se cogitava sequer ir atrás das respostas. Nesses momentos, de extrema chateação, tornava-se mau-humorada, não se engraçava com muita coisa. Sentia culpa por saber que nem tinha mais idade para ter sentimentos tão infantis de possessão sem justificativas. Numa tarde dessas, num rápido relax, lembrou-se que tinha ótimo gosto musical, porque até disso tinha se esquecido um pouco. O moço que vendia brincos no calçadão da praia tocava uma gaita. Ela se aproximou para ouvir melhor. Reconheceu a música. Era a clássica "Manish Boy" de Muddy Waters, e fingiu estar olhando os brincos que tinham um estilo bem riponga, que não era absolutamente o seu, e ficou por ali só para continuar ouvindo. Os brincos eram horríveis, cada um mais feio que o outro. Umas pedras fuleiras que não combinavam em nada com as sementes, mas foi obrigada a levar um, porque sua auto-estima estava em frangalhos e o gaitista-riponga-artesão a chamou de princesa. "Não vai levar um brinco, princesa?"...



Continua... no próximo Capítulo!