Sunday, December 12, 2010

saúde! amém!

Aberta a temporada de confraternizações e coisas do gênero, a gente fica por conta... ontem sentei-me à mesa com meu ex-chefe-candidatíssimo (ainda) ao posto máximo da saúde. Pudera... sabe TUDO de saúde pública e privada, sim senhor, e ainda por cima com simpatia e sensatez e mais aquele humor dos sábios, de fazer inveja aos "normais"...

"Não sabemos ainda, Inês... não sabemos ainda..." foi a resposta que ele me deu, quando eu perguntei sobre a possível configuração do ministério, caso as coisas não saiam como a gente gostaria muito que saísse...

e viva 2010... o ano que insiste em não acabar... mas que já deu... já deu né!
Ave canseira... ave esperança!

Thursday, December 02, 2010

do pitaco cabuloso e outras elucubrações futebolísticas...

Opcv... minha irmã já fez todas as contas. Considerando que "Cruzeiro ganhar" do palmeiras é uma redundância, nossa preocupação só gira em torno do tropeço dos outros lá. Então, basta que Guarani empate com o fluminense e que o Goiás (cheio de moral - registre-se) empate também e tal e coisa e tal...

Então, bora rezar pra Santa Esmeraldinha, protetora dos verdinhos-nossos -amigos-nossos colegas.... JOGAI POR NÓS !!!! SANTA ESMERALDINHA!

Sunday, November 28, 2010

jabuti awards...

Mas o que é isso companheiro....
Lendo aqui um bocado de coisas sobre a polêmica do "Prêmio Jabuti 2010"...
O cara dizendo que o literário Jabuti virou concurso de beleza e Chico Buarque dizendo que não vai devolver o prêmio de jeito nenhum...huhauaaaaaaaaaaaaa
PUTZ, e eu nem li o "LEITE DERRAMADO" ainda!

Pois é, isso tudo é porque esse povo todo não conhece o "Jabuti Zarôlho" que por acaso, esse ano quem ganhou fui eu, hehehehe. É o seguinte, você mesmo se premia, não ganha cashcalho nenhum, mas também a crítica não desembesta em ser contra. Pelo contrário, se alguém falar mal, você chama sua turma de leitores pra contestar, que consiste basicamente dos seus sobrinhos queridíssimos e suspeitíssimos, suas irmãs que adoram acompanhar tudo que você escreve (mais suspeitas ainda), aqueles poucos amigos "sinceros", elegantes y muy chegados que jamais lhe diriam a verdade se seu texto estivesse uma bosta, e mais uns três ou quatro que acham bacana e engraçadinho... e aí pronto! o Prêmio está no papo, e você está livre de qualquer indigestão ou dor de cabeça midiáticas pós premiação. Esse pessoal não aprende! tenho dito!

Thursday, November 25, 2010

no reino do esquisito...

Incrível... eu precisaria de uma centelha de inspiração para escrever coisas novas e uma tonelada de coragem para rever aquilo "tudo" que escrevi em forma de capítulos...
mas cadê... nem inspiração e nem coragem... será que o ano já fechou, e eu ainda estou como um zumbi, indo do nada em direção a coisa nenhuma, gente!
No reino do esquisito... hoje eu estou com a macaca!

Sunday, November 14, 2010

a volta do post do pitaco futebolístico cabuloso...

E porque as mulheres entendem, muito bem obrigada, de amor X ódio, conspirações e injustiças, e por isso tudo, entendem também de futebol, vamos falar desta coisa chamada Campeonato Brasileiro... Veja... o que é, o que é...
Que é pior do que sutiã apertado em dia de calor...
Pior do que sapato de bico fino no final de um dia inteiro calçada com ele...
Pior do que a mais profunda das nossas celulites...
Pior do que manicure tiradeira de bife...
Pior do que a invenção da calça saruel...
Pior do que perder as melhores peças da liquidação da sua loja preferida...

É um camarada que é balôfo, que joga no time adversário e que nem deveria estar jogando mais, (sabemos que ele já jogou muito bem, reconhecemos) porque além de balôfo o joelho dele é bichado desde muito tempo já....arrgghhhh, que raiva! pois é, continuando... o cara quando é balôfo e tem o joelho podre não dá conta de dividir bola alta, ai o que acontece... ele se esborracha sozinho no chão quando tenta fazer isso, aí o juiz ladrão dá pênalti pro adversário nos ultimos minutos do segundo tempo, gente! é inacreditável isso....affff e tome injustiça , né não!

Saturday, November 13, 2010

Em MAIAME só tem brasileiro...

Surreal. Você chega no hotel, o recepcionista é brasileiro, sobe no elevador com mais trinta brasileiros com duzentas sacolas cada um. Nas lojas, você abre a boca naquele inglês "the books on the table advanced" e o vendedor dana a falar em espanhol contigo. Você compra uma mala maior que você e enche com uma badulaqueira doida e depois fica pensando que podia ter levado mais, porque o preço tava uma coisa assim, de fazer qualquer um virar sacoleiro. No almoço, um restaurante brasileiro com um chef mineiro cruzeirense huahauahuaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... isto é Miami!

Thursday, November 04, 2010

férias...uai!

De férias... na maior vagabundagem, hehe, e lendo todo tipo de especulação sobre o que nossa presidente vai ou não vai fazer... haja saco, para discussões baratas tipo o que o povo anda dizendo sobre "a volta dos mortos vivos" que é a CPMF. Incrível, como o buraco é bem mais embaixo, e se utiliza todo tipo de conversa fiada para tratar o assunto, enquanto que o ideal é se construir um consenso para a solução de causa tão nobre. Já começaram a pressionar de todos os lados, mas ainda bem, elegemos a ponderação em pessoa. Vejamos... precisamos primeiro regulamentar a Emenda 29 PELO AMOR DE DEUS! uma coisa separada da outra, porque sem algumas definições básicas, pouco adiantará as fontes alternativas de recursos MEU JESUS CRISTO! e sinceramente bastaria a aplicação dos 30 por cento do orçamento da seguridade social na saúde para que as coisas melhorassem e muito. Não é possível MEU DEUS DO CÉU! isso está na Constituição Federal. E perguntem ao mestre da saúde pública Gilson Carvalho, que é quem mais entende deste assunto neste País, antes de qualquer coisa...affff!!!!!!!! parei! porque este assunto me dá nos nervos...arrggghhhh!!

De férias... na maior vagabundagem, hehe, numa preguiça doida... não quero sair nem para fazer as unhas... mas testando todo o meu imenso talento gastronômico, ui! e nem preciso me preocupar com a crítica, hehehe...

E já convidei para o chá das cinco...
Billie, Etta, Nina, Sarah e Barbra.............. afff!

Thursday, October 28, 2010

inferno astral II...

Tenho lido tanta coisa, tanto texto politico, tantos posicionamentos apaixonados e tantas ilusões ideológicas nestes últimos suspiros de campanha eleitoral, que daria até pra fazer uma bela de uma tese. Muito legal ver uma moçada que mesmo não tendo vivido os momentos mais duros da politica nacional consegue defender uma idéia de futuro mais solidário e menos preconceituoso. Quanto a mim... tô "véia", não tenho muita paciência pra ficar debatendo. Ainda creio fortemente numa revolução produtiva que é a da saúde pública e só. Há os mais afoitos. Os que mais se dizem contra os radicalismos são os mais radicais: generalizam tudo, separam tudo de acordo com suas convicções ingênuas, tipo: pobre é bom, rico é ruim; classe operária é digna, classe média é sórdida (como se eles mesmos não o fossem) e por aí vai. Me poupem: classe média somos todos nós que temos computador e adoramos carro novo, i-phone, i-pod, i-pad, i-sei lá o que mais que tem por aí... nós que adoramos uma vidinha boa, um confortozinho, um dinheirinho a mais na carteira no fim do mês e não sabemos bem se estamos preparados para a idéia de ter que dividir nossas próprias posses com os que não as tem, porque afinal de contas se consegue tudo com tanto esforço, não é mesmo? No máximo ajudamos as instituições de caridade, fazemos o bem sem olhar a quem, contribuímos para a diminuição das injustiças sociais e da pobreza e justificamos sempre pois, como é dificil ser despojado de tantas coisas neste mundo tão moderno e tecnológico e não se apegar a outras que só o capital nos proporciona? E nem por isso somos sórdidos. Pois é, às vezes pau pode ser pedra e pedra pode ser pau, e tem gente boa e gente ruim, tanto de um lado quanto de outro. A ponderação é uma coisa rara de se ver. Jamais perderia um amigo porque ele acredita que um lado ou outro é melhor. Cada um tem seu ponto de vista. Há muita gente classe média, honesta e trabalhadora que é menos capaz de perceber as sutilezas da politica como um processo social que deve ser construído para o bem de todos, e nem por isso elas deveriam ser classificadas como pertencentes ao rol de especialidades do demônio. Assim como há muita gente com inteligência, experiência e conhecimento de causa pra dizer que nunca na história deste País houve tanto progresso social e melhorias na qualidade de vida de todos e nem por isso deveriam ser classificadas como hipócritas alopradas. Somos múltiplos, Tem gente boa e gente ruim pra tudo quanto é lado. Devemos ser intolerantes é com os safados, os ladrões, os que abusam da boa fé alheia e os maus exemplos de conduta, sejam de que lado for. E nosso país ainda tem que resolver questões primordiais como a educação e a saúde pública, então colaboremos no sentido de acompanhar e cobrar do próximo mandatário as coisas que ele terá que resolver como uma obrigação legal e moral. Por fim, acho que temos estado no caminho certo, e que deveríamos continuar assim...
e para não faltar poesia, como eu diria?
a poetiza Alice Ruiz é quem diz: " nossa Senhora da Flor Roxa... ROSAI por nós!"

Wednesday, October 27, 2010

da série... inferno astral

Alguns homens não tem medidas, quando se trata de maltratar mulheres...
e os maus tratos vem muitas vezes tão disfarçados que sequer os outros homens o percebem. Veja, fizeram uma "brincadeira" de muito mal gosto às moças gordinhas na universidade, obrigando o ministério público a intervir, como se aquilo não passasse de pura diversão, apoiada por todos. O outro, safado, coloca a mulher, que sempre foi dona de casa, nunca extrapolou este pequeno universo que sempre foi o único que ela teve, também pudera, com um marido podre daqueles, pra concorrer no lugar dele nas eleições e se expor com toda a sua ignorância e simplicidade para todas as pessoas a crucificarem de uma forma cruel, já que ela é mulher+ignorante+burra+idiota por viver com um cara daqueles... quem tinha que ser esculachado e ser humilhado em praça pública era ele, não ela! e tem mais... outro dia num bar, dois malandrões, um já idoso até, e o outro, que era filho dele, também pudera o exemplo, assediavam a garçonete negra e simples, que não devia ter mais do que 20 anos, toda vez que ela vinha servi-los. A moça ali, no seu ganha pão, e os dois sórdidos a desrespeitando como se ela fosse a coisa mais sem valor desse mundo. Pois é, a lei Maria da Penha deveria prever penas para este tipo de homem que acha que é a coisa mais simples do mundo o descaso, o desrespeito, a intolerância e outras fontes de violência disfarçadas de normalidade e cultura masculinas. Deus nos proteja desses tipos, senão estaremos fadadas ao fracasso como almas serenas e suaves...

Saturday, October 23, 2010

da série OPCV...


OPCV é do dialeto mineiro (olha pra você ver)...



então, como se não bastassem a crueldade da calça saruel , do short jeans curto com os forros dos bolsos aparecendo, e os óculos gigantes do tamanho do mundo, eis que me deparo com isso, num blog desses aí de moda que tanto gosto de espiar.
Há que se ter estômago, pra tanta fashionisse...












Saturday, October 16, 2010

EXTRA! EXTRA!!

foto... Mikhail Baryshnikov, ainda jovem, exercitando-se na barra... coisa pouca .. hehe



Tomei um susto!

abri o jornal de hoje ele estava lá!


e ele está em turnê pelo Brasil e adjacências...

e ele vai dançar no palco do Teatro Nacional...porque ele ainda está dançando, minha gente!


e O MELHOR DE TUDO É QUE eu não vou mais morrer, sem vê-lo dançar ao vivo!

e ele se chama


Mikhail Baryshnikov!!!!!!!!!!!!!!!!


o maior de todos os tempos e de todas as galáxias...uuuuuiii! e eu vou abrir o berreiro, mas é com força!!!!!!


Sunday, October 10, 2010

voltando ao blog de sempre...

Terminado o meu distinto livro (devo contar que já estou concorrendo ao Prêmio Jabuti- zarôlho), voltemos ao blog de sempre... muito pitaco cabuloso, porque disso é feita a vida, e nenhum pudor, porque disso é feita a loucura da vida.

Enquanto tomo coragem para revisar tudo o que foi escrito, a idéia é que a versão impressa seja muito mais detalhada, muito maior, e sem erros gramaticais e ortográficos (ai que mêda!), vamos continuar por aqui com o que aparecer, e for digno ou não de nota. Vejamos:
O TREM AZUL ganhou ontem (eita raposinha linda de mamãe!)
e amanhã é feriado, vou dormir até minha cama me expulsar dela mesma! hehehe



Monday, September 20, 2010

Capítulo VINTE E SEIS...Ultimo capítulo...

Naquela sexta-feira tudo parecia normal. Era inverno, mas nada do frio chegar. Cora tinha tido uma semana agitada pós férias rápidas no Chile. Achou o lugar muito bacana, principalmente porque tinha encontrado Lenine lá. No meio da tarde, já sem muitas obrigações, ela procurou pelas palavras escritas de Pablo. Não as encontrou. Notou uma estranha ausência em sua lista de contatos. De repente o nome de Pablo tinha desaparecido de lá. Intrigou-se. Abriu as outras listas e nada. Abriu em seguida todas as suas páginas de redes sociais e se espantou mais ainda. Pablo tinha sumido de todas elas. Cora respirou fundo, tentando se situar. Verificou de novo. Nada apareceu. Era como se Pablo simplesmente tivesse evaporado. Ela pensou um pouco mais e lhe veio a idéia de perguntar a Nando. Há muito tempo não o via e nem falava com ele. Preferiu ligar. Nando sempre simpático do outro lado da linha. Cora foi direto ao assunto. Queria saber se ele sabia do paradeiro do primo. Nando pareceu não entender e perguntou a que primo ela se referia: "você está perguntando do meu primo Tom? que mora no Rio? " Cora respondeu que não, e Nando continuou: " então de quem você está falando? porque fora os que moram no Rio e você já ouviu falar, tem os meninos daqui." Cora disse que sim, estava falando do seu primo de Brasilia, Pablo. Nando riu e perguntou: "que eu saiba não tenho nenhum primo com esse nome, a não ser que tia Eulália ou tia Simone tenham ido ao cartório nos ultimos dias trocar os nomes das crianças." Cora parou de falar para se convencer. Nando falava a verdade. Ela deu um jeito de desviar o assunto, de dizer que estava brincando e que tinha ligado só por saudades mesmo. Quando desligou Cora sentiu uma estranha sensação de realidade em volta. Tudo exatamente no lugar, só ela tinha estado fora de órbita muitas vezes. A grande verdade era que Pablo não existia! Sim, ela o tinha inventado. Todas as vezes que se encontrara com ele fora em sonho. Seus sonhos eram muito reais, e essa era a explicação da maior parte do problema. Ela o tinha inventado como o seu perfeito e fabuloso complemento. Um ser cuja existência só seria possível na imaginação mesmo. No seu processo de reequilibrio, ela percebeu o quanto tinha fantasiado em torno da perfeição, da poesia e da música. Depois de cair em si, Cora sentiu-se triste por concluir que seus desejos haviam ido além do que ela podia controlar e por muitas vezes tinham lhe usurpado a razão. Sentiu-se triste, porque aquilo era a parte que ela gostava de cultivar como seu lado criativo e emotivo. Sentiu-se triste porque precisava desistir de pensar nele como real. Já tinha pensado até em escrever um livro. Era um sonho também. Por isso se mantinha sonhando. Foi pra casa, ouvindo música. Ouvindo tudo o que de mais encantador e sereno tinha para ouvir durante o trajeto. Quando chegou, e Alan lhe perguntou o que havia com ela, ela quis emitir sinais de naturalidade, ainda com a música do Caetano Veloso na cabeça. Voltou do quarto, decidida que estava mesmo enganada sobre a existência de um sentimento tão sobrenatural, e foi sentar-se com Alan no sofá. Ele a abraçou e ela sentiu o aconchêgo nada abstrato do seu amor bem presente ali, na simplicidade do dia e do cotidiano descomplicado. Sabendo que o assunto a agradaria, Alan lhe perguntou pelo livro que ela tinha dito que escreveria um dia. Cora gostou do papo e de repente se animou. Na semana seguinte começou a pensar num projeto. Começaria a escrever. Faria publicamente na internet e sabia que podia contar com seus leitores prá lá de suspeitos como colaboradores e grandes incentivadores. Deu certo. Ela começou a contar sua própria história que envolveu suas irmãs, seus sobrinhos, seus pais, seus amigos e mais um tanto de outras personalidades. Cora se divertiu e seu desejo de escrever ficou maior a cada capítulo. Catarina, Carolina, Caetano, Luana, Amora, Laila, Cristiano, envolvidos na história, passaram a postar comentários com seus nomes fictícios de Marina, Marilene, Gustavo, Ana Luiza, Renatinha, Luciana, Marcelo. Cora passou a imaginar seu livro já pronto e editado. Seria um romance. Queria que sua história fosse assim super atordoante, como era atordoante a escuridão dos que sonham em demasia, e ao mesmo tempo deliciosa, tão deliciosa quanto um brigadeiro. E as coisas caminharam bem. Tão bem que ela conseguiu por fim publicar o seu livro. Diante de tamanha realização ela não resistiu. Marcou uma pequena recepção para seus queridos leitores para brincar de noite de autógrafos. Todos entraram na brincadeira. Cora adorando tudo. Fizeram uma fila, para que tudo saísse como se fosse bem chic e normal. No meio das conversas e dos risos, Cora sentada, levantou os olhos para falar com o próximo da fila. E o próximo da fila era um rapaz, que trazia seu livro nas mãos para ser autografado. Cora o olhou, não o conhecia, mas gostou de cara do jeito com que ele se aproximou e fixou os olhos nela. E ela perguntou então qual era o seu nome, e ele respondeu que o seu nome era Pablo...





FIM



Talvez


Talvez não ser,

é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando o meio dia

com uma flor azul,

sem que caminhes mais tarde

pela névoa e pelos tijolos,

sem essa luz

que levas na mão

que, talvez, outros não verão dourada,

que talvez

ninguém soube que crescia

como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim,

sem que viesses brusca, incitante

conhecer a minha vida,

rajada de roseira,

trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és

E desde então és

sou e somos...

E por amor

Serei... Serás...Seremos...


Pablo Neruda

Friday, September 17, 2010

Capítulo VINTE E CINCO...

Pronto. Tudo que Cora queria era voltar a falar com Pablo. Prometeu a si mesma e a ele também que iria fazê-lo com cuidado. Para isso tinha que rogar a proteção do outro: o Neruda. Tentaria não assustá-lo mais, com tanta informação que vinha direto de sua alma, e atropelava tudo. Contemplaria muito mais o silêncio, e ela bem que se esforçou. Que ano bom. O Grupo Corpo aportou de novo na cidade, agora com o espetáculo ÍMÃ. Caetano ficava encarregado sempre de ir comprar os ingressos. Eles gostavam de ir sempre aos domingos, para poderem ir trabalhar na segunda-feira com suas almas muito bem lavadas. Cora se encarregava de levar os lenços. Não tinha jeito. Tia e sobrinho não tinham pudor algum em abrir o berreiro quando a música e os movimentos tocavam suas artérias. E dessa vez os bailarinos resolveram dar uma banana para a gravidade e se meteram a levitar e a voar pelo palco ao som de trombones. Por um desígnio dos céus, o coração de Cora era fortíssimo e ele seguiu suportar a emoção da coreografia embalada pela música "Sopro". Aquilo não tinha explicação no mundo das coisas muito concretas, no mundo simples ou real ou corriqueiro. Aquilo lá era um mergulho no infinito da oitava casa astrológica (a casa forte de Cora), meio que virada do avesso, que só Brígida explicaria. Cora e Alan tinham programado uma nova viagem, aproveitando um feriado bem prolongado. Desta vez foram para New York. A meca do consumo oportuno porque os preços eram todos pela metade e do consumo exagerado portanto, cujos padroeiros, São Credicard e Santa Visa eram muito reverenciados. Na Times Square era onde o mundo inteiro se encontrava e Cora delirou ao entrar num teatro da Broadway para assistir ao "Fantasma da Ópera". De novo, os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados, e os dois tiveram que adquirir algumas malas a mais para que as tranqueiras importadas pudessem ser devidamente transportadas de volta ao Brasil. Na volta, Cora precisou começar o tratamento com a dra. Olívia. Alívio. Ela passou a controlar a sua própria pressão arterial só com a respiração adequada e demais manobras orientais milenares. Nada de remédios controlados, nada de agressões gratuitas ao organismo através do radicalismo alopático. Não era fácil, mas a dra. Olívia dizia que era possível, e era mesmo. A proposta era um reequilibrio emocional e fisiológico. Nada mal, para quem precisou a vida inteira tão fortemente dos dois. O fim de ano foi na Cidade do Sol. Cora queria descanso, mas não pôde contar com Alan para isso e quis voltar pra casa antes. Dessa forma poderia ouvir Thelonious Monk ou Chet Baker em volume um pouco mais alto e merecido ecoando pela casa. Na verdade Cora percebeu-se insuportável também, e preferiu não piorar o verão de todos ao redor, que nao tinham nada a ver com suas confusões íntimas. Silêncio. Só a conversa cifrada com Pablo permanecia. Mudanças profundas no trabalho estavam por acontecer, o que deixava o ambiente envolto em especulações. Cora era temente a grandes guinadas. Ademais cultivava uma extensa afinidade com sua chefe Suzana, que até aquele momento não sabia do seu próprio destino profissional. Mas para o contentamento geral, as coisas se resolveram tranquilas. E por obra de Suzana, Cora fez uma viagem ótima por quinze dias a trabalho. Conheceu pessoas ótimas também, e trouxe a mala cheia de tranqueiras importadas de novo. Um tempo depois encontrou Pablo, e ele estava mais à vontade do que o normal. Conversaram. Mas eles não se olhavam diretamente nos olhos quando ficavam frente a frente. Havia uma névoa, havia uma espécie de medo ou seja lá que nome tivesse, o certo é que nenhum dos dois sabia o que era. Só sabiam que não eram nada naturais quando se aproximavam a uma distância concreta. Um assunto jamais tocado pessoalmente, e nunca resolvido na mente poeticamente perturbada de Cora Maria e que ecoava nos quatro cantos do seu mundo de incertezas, enquanto Chico Buarque cantava no i-pod...


Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Modesto
Um tipo de amor

Que é de mendigar cafuné

Que é pobre e às vezes nem é

Honesto
Pechincha de amor

Mas que eu faço tanta questão

Que se tiver precisão

Eu furto
Vem cá, meu amor

Aguenta o teu cantador

Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor

Com o zelo de quem leva o andor

Eu velo pelo meu amor

Que sonha
Que enfim, nosso amor

Também pode ter seu valor

Também é um tipo de flor

Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem

Que não deve nada a ninguém

Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser

Um tipo de compositor

Capaz de cantar nosso amor

Barato
Um tipo de amor

Que é de esfarrapar e cerzir

Que é de comer e cuspir

No prato...

Tuesday, September 14, 2010

Capítulo VINTE E QUATRO...

No carnaval do ano seguinte Cora e Alan foram conhecer Buenos Aires. Alan tinha muitas reservas em relação ao povo hermano. Achava que não tinham nenhuma educação. Ele se indignou também com tantos carros velhos nas ruas. "Ah não vou não, pagar para andar neste táxi, parece uma lata de lixo!", dizia ele. Os pontos turísticos foram todos cuidadosamente visitados e os alfajores devidamente encomendados. Cora pensava ter conseguido afastar qualquer sensação de platonismo ou sentimentos afins àquelas pétalas de sonhos românticos relacionados à Pablo. Puro engano seu. A questão seria pura e simplesmente fácil de ser resolvida desde que não o visse nunca mais. Mas ela o viu. E vê-lo e chegar bem perto dele, para ela bastava. Conversaram pouquíssimo, mas o suficiente para ela se situar e perceber que estava longe de solucionar seus imbróglios comportamentais e sentimentais. Cora não sabia delimitar muito bem o que tinha produzido como fantasia em torno da personalidade de Pablo evidentemente contraposta à de Alan. Assim como duas retas paralelas, cuja interseção só ao infinito pertencesse. Cora sempre almejara aumentar em alguns microgramas o seu desnutrido equilibrio emocional, mas aquilo era uma coisa muito danada de se obter para uma reles mortal, só era possível aos muito puros e evoluídos, ela pensava. E ela pensava, e pensava bastante. Em maio, nasceu Clarisse, a filhota amada de Cecília, a neta adorada de Catarina, o cristal puríssimo de tia Cora. Ela ficou mais que encantada no dia em que viu a pequenucha criatura de alguns dias de vida, no colo da vovó Catarina, tomando leite materno no copinho. A cena era de uma sutileza sem tamanho e ela desejou, do fundo de sua alma, poder um dia ter o dom daquilo como tinha sua irmã. Cora nunca perdia a mania de ler muitas coisas ao mesmo tempo. Misturava a leitura muito séria de Eduardo Gianetti com a muito doida de Pedro Juan Gutierrez, uma salada muito insana talvez, e deveras instigante e palpitante. Mia Couto, ela misturava com Rosa Montero, a escritora que misturava o real com o fantástico de uma forma grandiosa e instigante. Meia volta, volver, e ela corria de novo para o aconchêgo dos braços da poesia de Mário Quintana. Caetano Veloso veio apresentar seu novo show em Brasília e Caetano, o sobrinho, apresentou Dedé, à sua tia Cora. Caetano e Dedé tinham tanto em comum que às vezes até se confundiam nos detalhes. Eram mesmo um par. Um dia almoçando com Isabela no trabalho, Cora sentiu uns sintomas bem estranhos. Nada que ela reconhecesse como normal para seus padrões crônicos. Ela ainda não sabia, mas tinha iniciado um processo de transtorno de ansiedade, que a fez buscar mais tarde uma alternativa de tratamento diferente daquela do consenso geral, e ir parar nas mãos de Olívia. Cora percebeu que trocando-se de lugar a primeira com a ultima letra daquele nome, era possível entender perfeitamente o que ela viera trazer para sua vida, a partir do primeiro momento com as agulhinhas devidamente direcionadas aos seus pontos vitais. Alívio. E a doutora Olívia o sabia bem. Amora concluiu o curso superior naquele ano e Cora se mandou, sem Alan de novo, para Bela Montanha para comemorar com ela o momento tão importante. Se acabaram até às cinco da manhã na pista de dança do baile mais badalado do ano. Tomada por uma coragem muito grande, após ter sonhado com ele, Cora tentou, depois de todo aquele tempo, um contato com Pablo. Não se conformava de não poder sequer trocar idéias com alguém que para ela valia tanto. Ele respondeu. Meio bossa-nova, meio rock'in roll, bem ao estilo dele. Nada muito íntimo ou muito amável, que foi melhorando mais tarde, mas nada também que pudesse ferir de morte o seu amor-próprio. E Cora ficou feliz, assim, meio dance, meio bamba, meio jazz e meio samba...

Saturday, September 11, 2010

Capítulo VINTE E TRÊS...

Paris, que cidade linda. Aquelas coisas dos cartões postais e das revistas. Cora se manteve em estado de encantamento durante todo o período em que ficou lá. Pudera. Parecia haver vasinhos de flores nas janelas de todos os apartamentos pela cidade inteira, que davam todo um sentido poético ao seu deslumbre. Era primavera na Europa. As moças elegantes com seus chapeuzinhos andando de bicicleta por aquelas ruas cinematográficas faziam Cora ouvir, sem estar tocando, lógico, as músicas de Edith Piaff. Mapa na mão e mochila nas costas, os dois andavam o dia inteiro. Para Cora tudo era lindo e grande, emoldurado pela vastíssima e riquíssima história. No dia das mães, Cora quis acender uma vela para Clara, sua mãe, aos pés da Virgem Maria no Sacre C'oeur, e pediu pela saúde dos olhos dela. Mais que o simbolismo, valia a condição de ter ido tão longe e não ter deixado de render aquela homenagem. No final de uma semana pegaram um trem para Amsterdã, numa viagem bem prazeirosa e inédita. O outro país também era cheio de muita graça e seus habitantes ainda mais. Foram também ao interior para encontrar Tayná e sua trupe, que fazia shows de capoeira por lá todos os anos, e encantavam as crianças de peles bem branquelinhas e olhões azuis. Na volta, uma mala só para trazer as tranqueiras adquiridas no estrangeiro e uns vinhos ótimos comprados a preço de banana. Cora retornou com a cabeça mais leve e deliciou-se com a idéia de seu sobrinho Caetano vir de mudança para Brasilia também. Eram companheiros de platéia do Grupo Corpo, que naquele ano veio para a sala Villa Lobos do Teatro Nacional com o espetáculo BREU, com trilha sonora composta por Lenine. Nas eleições municipais, ela retornou à Margem Grande para subir ao palanque por seu amigo prefeito com quem tinha trabalhado, mas não foi feliz. A prefeitura foi parar nas mãos do adversário bicudo com asas e muitíssimo cara de pau. Uma pena. Na primavera, uma noticia inesperada. Sua irmã Catarina ligou com uma voz mais grave que a do seu normal. Cora esperou o pior. Mas não era nada disso. Pelo contrário, ninguém doente, ninguém morrendo. Era a noticia de uma vida que estava sendo preparada para vir ao mundo no seio dos Floreira dos Santos. Cecília, que tinha comemorado seus quinze anos naquele mesmo ano, agora estava grávida. Catarina seria vovó e Cora, passado o susto, ficou imaginando a pequena criatura já falando pelos cotovelos como falava Cecília em seus primeiros anos de vida. Uma doçura. No fim do ano Cora foi para Bela Montanha para o casamento de Luana e Fred. Fred estava de malas prontas para seu novo trabalho na Austrália. Luana iria em seguida. Catarina chegou a tempo para a despedida de solteira de Luana que foi comemorada pelas tias, primos e primas num lugar inusitado, montado por cooperativas de catadores de lixo e papel e com música ao vivo. Só em Bela Montanha tinha dessas coisas. Cora foi sem Alan e se soltou pra valer na pista de dança com Catarina. No dia do casamento emocionou-se ao ajudar Luana com o vestido. Ela ficou linda, e usou uma Gérbera nos cabelos. No fim do ano, a familia se reuniu na praia para o natal e o ano novo. Alugaram uma casa. Muita comida e muita bebida, não tinha como ser diferente. Na noite de natal, perú e presentes. No meio da troca de votos, Cristiana veio até sua tia Cora e pediu sua atenção, chamando-a discretamente para um canto. Estava muito emocionada e enxugou os olhos. Tinha visto Cecília, já com a barriguinha bem aparente, sentar-se no colo do pai Diogo, e chorar...

Wednesday, September 08, 2010

Capítulo VINTE E DOIS...

Caetano e Luana se mudaram rapidamente de casa e a prima Amora foi morar com eles. Amora dedicou-se fortemente e fraternalmente aos primos naquele ambiente de árdua superação. No ano seguinte, o irmão mais novo de Cora, Cristiano, casou-se com Angélica. Cora e Alan foram padrinhos do casamento que aconteceu na Cidade do Sol, a cidade natal de Angélica. Aproveitando a ocasião, Cora reencontrou alguns de seus amigos, e relaxou pra valer com os sobrinhos Caetano, Luana e Amora num passeio pelo belíssimo litoral norte. Na volta, ela e Alan começaram os preparativos da mudança para o novo apartamento. Tudo novinho, tudo diferente e envolvente, desde a pintura da parede em cor diferente que Alan fez questão de pintar, até a peregrinação pelas lojas especializadas em apetrechos para casa que eles passaram a fazer semanalmente. Cora tinha decidido iniciar uma busca por coisas leves que tivessem o poder de manter seu coração suficientemente calmo, como fizera da outra vez em que precisou esquecer o que Nando lhe havia deixado como experiência de uma paixão um tanto desmedida. Encontrou um professor de ballet que tinha um gosto musical para sonorizar os exercícios que ía de Marisa Monte com Paulinho da Viola a Bach, passando por Jamie Cullum. Estes dias eram os mais tranquilos, e a bem da verdade, os mais encantados, como não? Lá pelo meio do ano, Cora viajou para ver os sobrinhos em Bela Montanha e se divertiu com eles no show dos Mutantes, com Zélia Duncan nos vocais e Arnaldo Baptista, incrível, rodopiando pelo palco feito uma bailarina muito bêbada. Ela passou a escrever sobre todas as sensações e sobre tudo o que a fazia se inspirar. Postava música, não abria mão de se derramar inteira e se expor envolta por poesia, e porque não resistia, não tinha deixado de acompanhar o que Pablo escrevia também. Muitas vezes tinha a sensação de que ele escrevia para ela, e que por isso restara uma centelha inexplicada. Em outras, se contentava com aquele misto de não-amizade e ternura gratuita que ele imprimia aleatoriamente em seus textos. Ficou feliz da vida, no dia em que encontrou sua velha amiga Samantha, numa rede social da internet. As duas tinham estudado juntas em Bela Montanha e tinham perdido contato há pelo menos uns dez anos, percorrendo caminhos totalmente distintos pós-formatura. A amiga era a mesma criatura simples e dócil de sempre, que tinha conservado até a longa e lisa franja nos cabelos do tempo da faculdade e agora morava bem ali do lado. Samantha tinha se casado com Jorge e tido filhos gêmeos, além do primeiro. Elas se abraçaram forte no dia em que se encontraram e puderam falar e rir muito sobre o passado e sobre todas aquelas criaturas que o habitaram. O tempo tinha implacavelmente passado para todos. Para a felicidade de ambas, Jorge e Alan desenvolveram uma empatia mútua e elas puderam conviver tão próximas como eram quando eles ainda nem existiam para elas. E foi Samantha quem apresentou Cora à pessoa que passaria a cuidar dela da forma com que ela sempre esperava ser cuidada em sua morbidade crônica. A doutora Letícia, que era uma especialista conceituada, era a tranquilidade em pessoa e transmitia seriedade, confiança e acima de tudo esperança, e Cora passou a se sentir melhor, por estar nas mãos de quem cuidava tão bem de sua amiga também. Samantha tinha exatamente a mesma condição de saúde de Cora. Saudosismos à parte, o ano seguinte veio carregado de novidades e numa noite calma, ela foi surpreendida por Alan como nunca tinha sido. Ele chegou em casa com um sorriso estampado e quase eufórico, portando um envelope pardo que começou a abrir antes mesmo de descansar os ombros da mochila pesada. Dentro do envelope, dois folders coloridos, uns papéis com alguns rabiscos que pretendiam ser um roteiro de viagem de trem e uma impressão cheia de traços coloridos que ele lhe apresentou como um presente. Era o mapa do metrô da cidade de Paris...

Friday, September 03, 2010

Capítulo VINTE E UM...

Cora passou a ter muita dificuldade em guardar tanta suposta poesia dentro de si mesma. Em seus pensamentos minuciosamente elaborados tinha a certeza de que, em menor proporção, havia uma atração não revelada de Pablo por ela também, que se fazia sentir em cada detalhe que ele expunha timidamente. Isso fez com que Cora passasse a sentir uma necessidade ainda maior de dizer a ele o quanto sua atenção valia para ela. Em casa, tentava não se dispersar mas era inevitável não pensar nele como alguém que nunca fosse capaz de imputar a ela qualquer tipo de mágoa, como já o tinha feito Alan algumas vezes, mesmo que não tivessem tido nenhum contato mais concreto, além das palavras. Seu lado inconsequente e demasiado impulsivo tomou o comando bem no meio do caminho entre a dificuldade de manter seu segredo e o desejo de ter alguém como Pablo bem perto. Começou a tentar chamar a atenção dele de todas as formas possíveis. Em meio ao poético, escrevia o improvável, e numa dessas tentativas Pablo se irritou profundamente, por não compreender o porquê de tantos desvarios de alguém tão definitivamente comprometida e confusa. E ele, igualmente confuso, pediu por fim, que ela o deixasse em paz. Ela ainda tentou uma explicação na medida do seu desassossêgo, mas não funcionou. E ao invés de conseguir dele o que ela esperava, que era o abraço compreensivo do sim, o que ela recebeu de volta tristemente foi a rasteira indesejada do não. O Brasil perdeu a Copa, e Cora perdeu Pablo. A comunicação entre os dois fora sepultada, e ela precisou de um tempo maior do que previra, para acostumar-se de vez com o vazio que ele lhe impusera em seu lado mais esperançoso e inspirador. Tinham se encontrado enquanto não esperavam nada, e de repente tinham se perdido no meio de tudo, restando para ambos a sensação de um ressentimento inconcluso. Aquele ano ainda lhe reservou uma perda maior que qualquer outra que já tinha vivido até então. A familia Floreira dos Santos acompanhava estarrecida a luta de Gérbera contra o mal que tinha lhe atingido. A amiga Isabela várias vezes emprestou o ombro para que Cora se apoiasse nos momentos em que sentia a profunda angústia de se sentir incapaz de ajudar a irmã, que adorava e guardava com o maior carinho do mundo as coisas que ela sempre escrevia. Ela viajou com Catarina e Carolina para Bela Montanha para que pudessem vê-la. Três dias depois, as irmãs retornaram, ela ficou, e já era quase noite, quando a enfermeira que tinha passado a acompanhar sua irmã entrou no quarto onde ela estava dormindo, em casa. Cora lia sentada em uma cadeira ao lado da cama, e a enfermeira a cumprimentou, percebendo que a pele de Gérbera apresentava um aspecto um pouco diferente do normal. A moça de branco começou então a checar os sinais vitais dela, lançando em seguida um olhar desconfiado e muito sentido para Cora, que experimentou um aperto no peito, desses que nunca se deseja sentir quando se espera algo profundamente doloroso e inevitável. Cora preferiu se esquivar e levantou-se para ir em direção ao oratório da Santa, que tanto sabia sobre sua irmã, para uma ultima súplica, mas era como se a Santa permanecesse impassível, e naquele momento mostrasse mais nitidamente ainda, seu semblante materno de puríssima compreensão e compaixão. Gérbera tinha parado de respirar, enquanto outras pessoas entravam no quarto, e seu filho Caetano sentia lentamente o chão se abrir sob os seus pés. Luana precisou ser amparada no peso insustentável do seu sofrimento, e os dois pediram para se despedirem dela a sós. Ficaram fechados no quarto por um tempo com ela e choraram junto ao corpo inerte da mãe, a maior dor de suas vidas. No plano espiritual havia um jardim com uma floreira que era dedicada aos santos, e Gérbera estava indo naquele momento para decorá-la...

Capítulo VINTE...

Naquele dia eles conversaram, trocaram e-mails e deu tempo também de perceber que era Pablo quem tinha muito mais em comum, profissionalmente, com Cora do que tinha Nando. Ainda por cima, Pablo tinha um comportamento e inteligência que a agradavam. Ela o achou simpático. No dia seguinte, quando ela abriu sua caixa de mensagens, tinha uma espécie de recado de Nando, dizendo que tinha ficado feliz em reencontrá-la e saber que ela estava bem, entre outras coisas afáveis. Cora respondeu que sentia o mesmo, e era verdade, mas não se alongou no tema, pelo contrário, não teve vontade alguma de falar sobre o passado. Acabou citando Pablo na conversa e em seguida tentou um contato com ele, sugerido por Nando. Pablo era amável, respondeu ao contato, e eles passaram a se corresponder e a falar sobre trabalho, mas também sobre música e outros tantos assuntos afetos ao bom gosto do qual deveriam ser feitas todas as melodias do mundo. Ela passou a ouvir seus sons preferidos o tempo inteiro, e voltou ao ballet. Pablo escrevia bem, e gostava de João Gilberto, de Tom e de Vinícius. Cora passou a ler o que ele escrevia, e não percebeu quando aquilo passou a deixá-la meio atrapalhada das idéias, porque sua escrita tinha o poder de fazê-la extremamente interessada em tudo. Ela passou a achá-lo mais interessante ainda. Passou a ter por ele uma espécie de sentimento de amizade muito desejada. Era como se pudesse falar sobre coisas que sentia e gostava tendo alguém que compartilhasse aquelas mesmas sensações e ao mesmo tempo um certo estranhamento com as situações mais inexplicáveis da vida. O Brasil se preparava para ir à Copa do Mundo, as quadras residenciais e comerciais da cidade começaram a ser enfeitadas e cobertas por alegorias nas cores verde e amarela. Cora começou a sonhar muito mais. Alan não percebia. Ela tinha encontrado Pablo uma segunda vez, numa ocasião rápida, mas suficiente para alimentar um encantamento gratuito que ela não sabia exatamente de onde tinha vindo. Só sabia que era legítimo e era real. Ele concordou em ir almoçar um dia com ela, e na volta, ao se despedir dele, ela sentiu medo. Teve a sensação de que estava sendo correspondida em sua idealização e ao mesmo tempo de que estava sendo ridiculamente interpretada. Aquilo tudo parecia ter tomado uma proporção emotiva maior do que ela tinha imaginado e sua culpa pudesse permitir. E nesse mesmo dia, à noite, num daqueles seus momentos, pra lá de agradáveis de leitura, deparou-se com uma crônica do Caio Fernando Abreu, que parecia ser em alguns pontos, o relato do que acabara de viver, e que era mais ou menos assim: "Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada..." Naquela noite Alan chegou um pouco mais tarde em casa, e trouxe consigo uma belíssima orquídea. Cora a recebeu com um sorriso não muito verdadeiro, fechou o livro, e na manhã seguinte acordou sobressaltada. Tinha sonhado com Pablo...

Wednesday, September 01, 2010

Capítulo DEZENOVE...

Uma das atribuições corriqueiras de Cora no trabalho consistia em participar de todo tipo de evento relacionado ao assunto politicas de saúde, do qual ela mais gostava. Certa vez quem estava na abertura de um deles era ninguém menos que o escritor Ariano Suassuna. Ela maravilhou-se, conseguiu chegar bem pertinho dele, o que para ela bastava. Voltou pra casa inspiradíssima pela genialidade contagiante e o poder de arrancar o riso frouxo até do mais carrancudo ser humano, que tinha aquele velho. Sentiu saudades de rir com Laila, que a esta altura já era mãe das gêmeas Elis e Jade e morava em Enseada. No embalo da graça do escritor, escreveu uma espécie de mini-crônica, que falava sobre as travessuras de vovô Tico, que mesmo com uma idade avançada não se furtava a realizar estripulias, e que ficou bem a cara dele. Carolina, suspeita como sempre, adorou. A saúde de Cora ia bem, mas precisava de um profissional que a entendesse e a acompanhasse de forma mais holística ou cuidadosa o bastante para ouvir seus reclames de forma um pouco mais acolhedora. A amiga americana de Caetano tinha trazido para ela o CD "aja", um clássico do Steely Dan, que usava para meditar, ou popularmente falando: viajar na maionese mesmo. E ela fazia longas viagens, porque aquele foi um período em que um certo afastamento emocional entre ela e Alan se fazia cada vez mais presente, e em que o placar apontava para um resultado nada animador (Intimidade: dez X Romantismo: zero). Cora tinha dúvidas e achava que Alan também tinha as suas. Uma situação até normal pela qual passam todos os casais, uns em menor escala, e outros com menor intenção, durante seus longos percursos a dois. Mesmo assim, uma bela oportunidade bateu à porta e eles não hesitaram em investir. Compraram um apartamento ainda em construção em outro bairro e passaram à contagem regressiva para a entrega, que seria dali a um ano. No carnaval, a familia Floreira dos Santos se encontrou na fazenda de Carolina. Muita comida e muita bebida, era sempre assim. Mas dessa vez havia uma preocupação entre todos. Gérbera não estava bem. Tinha tido o diagnóstico de uma doença grave e se encontrava em um penoso tratamento. Era muito ruim, vê-la tão debilitada, e pior ainda não ter como encontrar caminhos mais suaves para o enfrentamento daquela condição. Lá pelo mês de abril, a chefe de Cora pediu pra que ela fosse à uma reunião para substituí-la em outro órgão. No fim da reunião, caminhou para esperar o elevador junto às outras pessoas enquanto ainda conversavam sobre os encaminhamentos que tinham sido discutidos lá dentro. A porta do elevador se abriu, e o primeiro a sair e a dar de cara com ela foi um rapaz. Foi Nando quem saiu lá de dentro e quase trombou nela, de crachá e algumas pastas na mão, que quase caíram quando ele a reconheceu. Ela se espantou tanto que levou sem querer as duas mãos abertas ao rosto. Ele era o mesmo, estava de óculos. O mesmo que desembarcara na Cidade do Sol há alguns anos atrás, numa tarde em que ela jamais imaginaria ter com alguém aqueles momentos bastante raros. Nunca mais tinham se falado, nunca mais tinham se visto, e foi visível o contentamento dos dois pela bela coincidência. Passado o susto, se afastaram para se cumprimentarem direito. E foi quando ela percebeu que Nando estava acompanhado de alguém que se parecia muito com ele, só que um pouco mais retraído. E ele os apresentou: "Cora, este é meu primo Pablo. Pablo, esta é minha amiga Cora"...

Sunday, August 29, 2010

Segunda parte... Capítulo DEZOITO...

Cora e Alan, ambos motivados e felizes da vida, trataram de se ajeitar na nova cidade. No fundo, Cora já tinha uma idéia de que não ficaria para sempre em sua cidade natal. Brasília, esta cidade real, concretamente fincada no meio do cerrado rico em ipês de todas as cores e um céu de azul profundo famoso, estava bem próximo do que ela tinha desejado desde que deixara a belíssima Cidade do Sol. Foram morar em um bairro tranquilo, num apartamento meio velho, no terceiro andar de um prédio só de escadas, mas com espaço suficiente para o que tinham acumulado como casal nos ultimos anos. Na primeira semana, resolveu dar uma volta de reconhecimento pelas redondezas e encontrou um lugar ótimo para comprar frutas e verduras. Esqueceu-se da ausência de elevadores que teria que enfrentar e resolveu levar duas sacolas de laranjas para casa. Lá foi ela, subindo, e no final do quinto lance das escadas uma das sacolinhas se abriu e lá se foi um bando de laranjas rolando e saltitando fora de seu controle. Ela parou suspirando e sentou-se, e de repente as laranjas pareciam caçoar dela, rindo, desembestadas, trombando umas nas outras, pulando os degraus meio encardidos escada abaixo. Observou, e caiu na risada junto com elas. Ela se lembrou de que Brígida já anunciara em seu mapa astral, anos atrás, algumas coisas que só agora começavam a lhe fazer sentido. Coisas do tipo: "mudanças domésticas", "futuro profissional em grandes estruturas" "importantes descobertas"e demais especulações filosóficas e arrítmicas. O ano passou rápido. Catarina também veio de mudança, deixando a cidade de Redentor para trás. Brasília era real. Brasília era surreal. Uma arquitetura que se fazia referência internacional e uma população tão misturada e diversa de culturas como uma colcha de retalhos bem alegre e colorida. No novo trabalho ela se adaptou rápido, teve sorte. Fora lotada num setor onde ela poderia se manter conectada com os ideais já aprimorados de construção de soluções mais solidárias para o contexto da saúde, e dessa vez num nível muito mais abrangente. Partindo-se do início de tudo, lá no pequeno município, o seu universo realmente se expandira. Cora passou uma boa temporada fora para fazer um curso de formação e na volta, aguardou as formalidades para o início do novo trabalho. Com tempo de sobra, leu e escreveu algumas coisinhas fuleiras, só para provar que ainda podia e que ainda estava em plena forma. Mas tempo de sobra para ela, depois de tanto movimento anterior, significava espaço para elucubrações e variações sentimentais em grande escala. Algumas mudanças no comportamento de Alan a deixaram em dúvida se ele havia realmente se encontrado emocionalmente e profissionalmente ou se ainda procurava razões ou qualquer outra coisa diferente do que ela achava que ele tinha vindo buscar. Como ele não gostava de falar abertamente sobre o assunto, ela mantinha sua desconfiança, e sua imaginação e senso crítico fluíam de maneira equivocada ou não, a depender do seu ciclo ovulatório, assim como o fazem a grande maioria da espécie do gênero feminino. Desde o primeiro dia de trabalho Cora descobrira uma colega de trabalho especial, Isabela, de astral e maturidade incríveis. Tiveram uma empatia mútua e se tornaram depois grandes amigas. E foi Isabela quem passou a compartilhar todas as suas confidências e a apoiá-la no ano seguinte, que tinha previsão de ser emocionalmente muitíssimo complicado...

Saturday, August 28, 2010

Capítulo DEZESSETE...

Cora era péssima dona de casa. Sua preguiça para a organização doméstica irritava Alan de modo bem aparente. Ele não entendia quando ela preferia dançar a arrumar o quarto, por exemplo. Quando muito raramente, ela se metia a limpar a casa, ou a lavar a louça do dia anterior que dormira suja na pia, não o podia fazer sem ouvir música. Aí o que era para ser uma tarefa odiosa mas rápida, se tornava uma viagem teatral demorada e mal feita, porque se a música fosse dançante, não tinha jeito. Ela parava tudo no meio para dançar pela casa afora com a vassoura, o rôdo, os panos de prato ou o balde nas mãos. E estava fora de seu controle, o que Alan interpretava como frescura e má-vontade. Sim, a interpretação era um problema a ser trabalhado entre os dois, mas ela preferia o conforto da paz de não discutirem aquela profusão de diferenças embutidas em cada gosto ou gesto. Cora detestava a sensação de se sentir só. Para ela, a solidão era como estar completamente solta no meio do nada e sem a chance de se inspirar. Sentia necessidade profunda de alguém que segurasse sempre a outra ponta de uma corda invisível, que a pudesse salvar quando fosse preciso. Sentia-se grata a Alan quando ele a ajudava cuidar da desastrosa e invencível batalha que travava com sua própria enfermidade. Cora ia a pé para o trabalho e passou a dar aulas de saúde coletiva à noite, para incrementar o orçamento. Gostava de viajar para supervisionar os programas de saúde dos pequenos municípios com sua equipe de trabalho. Cada lugar um problema, cada prefeito uma solução. Tinha iniciado também novos estudos, desta vez em Brasília, e passou a frequentar o órgão máximo da saúde pública do país. Alan tinha terminado seu curso e seus pais tinham vindo para a capital. Alan quis logo tentar algo mais promissor na profissão e conseguiu por lá, sem muito esforço, um trabalho numa grande empresa. Passava os dias em Brasilia trabalhando e retornava para Mangaí nos fins de semana. Cora tinha passado também a pensar em ampliar seu escopo e quis alçar um vôo profissional maior. Já tinha acertado trocar seu vínculo estadual pelo federal como consultora contratada do Ministério da Saúde, quando recebeu a notícia do resultado final do concurso público federal que tinha tentado. Estava num restaurante self-service com as colegas do curso quando Alan ligou para lhe dar a noticia de que havia passado. Começou a chorar perto das saladas, aquele chôro do alívio no peito e só conseguiu parar lá na frente, nas batatas. Sua amiga percebeu e levantou-se da mesa para abraçá-la, e o restaurante inteiro soube que aquele chôro era só a manifestação típica das mulheres quando se sentem extremamente realizadas, e portanto muito felizes...

Friday, August 27, 2010

Capítulo DEZESSEIS...

Sim, ela era ao mesmo tempo uma romântica incorrigível e uma passional sem-noção. O filme "As Pontes de Madison" era o seu referencial máximo de permissão para sentir emoções ultra-secretas e amar sem culpa. Tinha sonhos estranhíssimos, inventava situações só para seu consumo e por isso mentia. Lia Florbela Espanca e Carlos Drommond de Andrade a qualquer hora do dia, caía no chôro com seu sobrinho Caetano quando iam aos espetáculos do Grupo Corpo, arrepiava-se quando ouvia um solo de trompete, derretia-se quando alguém tocava um instrumento musical e gostava da ciência astrológica para fins supersticiosos e futurísticos mais que duvidosos. Acostumou-se rápido à nova rotina, mas não se acostumava nem com o ritmo da cidade nem com o das pessoas. Tinha reencontrado pouquíssimas amigas, da infância e adolescência e cada uma vivia um momento diferente, já com filhos à tira-colo. Alan preenchia seus espaços com o trabalho e a faculdade e ela com as viagens quase que semanais à trabalho. Eles não tinham muito tempo para balanços do relacionamento ou coisa parecida, e não havia nada de especial ou promessa de novidade naquele horizonte curto . Ela carregava o nome de sua mãe no seu, só que o seu era composto: Clara Maria. Quando Cristiana, filha de Carolina tinha uns dois anos e falava tudo enroladinho, ela inventou o seu apelido: CORA. Como não conseguia falar tia Clara, ela falava tia Cora, sem saber que sua tia diabética colecionava, de propósito, poemas da poetisa-doceira goiana mais fofinha de todo o universo:

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo!!!



Cora Coralina

Saturday, August 21, 2010

Capítulo QUINZE...

Foi o Dr. Benício Cadotti quem medicou sua mãe. Clara já tinha tido transtornos anteriores e estava há muito tempo sem os episódios agudos. Dr. Benício era muitíssimo paciente e tecnicamente bastante graduado, e dessa vez, o diagnóstico e o tratamento sob sua batuta tinham sido ultra-adequados. Mesmo com o apoio providencial de Alan, nossa protagonista não sabia lidar calmamente com a situação. Nessa época, ainda não era claro para ela que sua dificuldade dizia respeito a algumas coisas que não conseguia suportar em si mesma. Ligou para a irmã Catarina, chorou o quanto pôde, e a deixou preocupada. Catarina não pensou muito, e pegou logo um avião de Redentor para Bela Montanha. Algumas semanas depois de tratamento, as coisas foram voltando ao normal, por uma bela conjunção de fatores, o socorro do irmão mais velho Heitor, a acolhida de Gérbera e o colo de Catarina. Explique-se: a familia Floreira dos Santos não era grande só em tamanho. Dentro de seus contornos cabiam toneladas de compreensão e solidariedade nesses momentos críticos. Vovô Tico havia se casado uma primeira vez, tinha tido nove filhos e ficado viúvo. Casou-se depois com Clara, que deu à luz mais quatro. Carolina, Catarina e Cristiano eram seus irmãos por parte de pai e mãe. Uma imensa familia. Cristiano era o mais novo, tinha uma ligação especial própria de caçula com a mãe, e pôde ajudar na reabilitação emocional dela na volta pra casa. Ele tinha voltado a morar na casa dos pais, depois de ter experimentado também a Cidade do Sol e Redentor como moradas. Com a recuperação de Clara, no final do ano havia o que comemorar e o Natal reuniria todo o pessoal de novo. Nessas ocasiões, cada um tinha um caso engraçado a contar, um prato diferente a cozinhar e no final das contas, todos tinham abraços para compartilhar. A chuva chegou, a poeira baixou, a vida seguiu. Em Margem Grande as brigas politicas continuaram e ela passou a sentir cansaço também dos deslocamentos semanais e da ausência de sossêgo para pensar em coisas mais leves. Como secretária de saúde tinha passado a frequentar as reuniões com os representantes da secretaria de saúde do Estado, e ao final de quase três anos na esfera municipal, foi convidada a fazer parte na equipe da esfera estadual. Passaria a trabalhar em Mangaí e portanto não houve nada que a fizesse pensar em não aceitar o convite. Um novo desafio. Um desafio maior ainda do que tinha sido o primeiro, a diferença é que dessa vez ela já se encontrava totalmente á vontade por estar envolvida de forma quase apaixonada pelo assunto saúde pública. Pensou também em estar mais perto de Alan, já que ele tinha dado sinais de não estar tão satisfeito sozinho na maioria do tempo, naquela cidade nada familiar, de clima sufocante e sem atrativos. Pediu as contas na prefeitura e trocou o vínculo municipal pelo estadual, no embalo de cuidar também de organizar melhor seu cotidiano e seus pensamentos. Capacitou-se ainda mais na área, e entendeu que aquilo seria por muito tempo. Não quis mais trabalhar com a clinica. Tinha deixado de lado aos poucos a profissão original, desacostumando-se daquele desenho de quatro paredes, uma auxiliar e um paciente. Tinha percebido um horizonte muito maior em suas novas experiências com coisas grandiosas ao redor e muitas obrigações a definir e a cumprir. Considerava estar realmente contribuindo para o bem-estar coletivo das pessoas da região, mesmo que as idéias carecessem sempre de um pouco mais de disposição orçamentária para serem colocadas em prática. A saúde pública era assim, somente para os românticos incorrigíveis ou, na pior das hipóteses, para os passionais sem muita noção...



Continua... no próximo capítulo!

Friday, August 20, 2010

Capítulo QUATORZE...

Ela ficou de pé. A sensação era de que iria levar uma grande bronca sobre o jogo de cintura que mantinha com os adversários politicos do prefeito. Na verdade detestava aquela eterna e insensata briga politica naquele lugar tão pequeno. E ele foi logo disparando: " Estou falando aqui com seu cunhado que você será nossa nova secretária de saúde. Eneida não é mais secretária, ela é uma traidora. Acabei de exonerá-la do cargo". Ela sentou-se, lançou para o cunhado aquele olhar de "salve-me, por favor" e ele, com uma calma de monge, só perguntou com toda a objetividade do mundo se ela achava que era capaz. O prefeito interrompeu, com o jeitão já conhecido: " Não se preocupe, converse com Silvia, e se você achar que precisa, procure um curso que ensine sobre administração municipal e legislação de saúde. Não quero mais saber de Eneida, além de traidora é uma chata de galocha, não é Roberto, o que você acha?" e Roberto repetiu a pergunta. Ela respondeu meio automaticamente que achava que tinha condições de assumir tal posto, mas que ia precisar se capacitar bastante. Ela não tinha a menor noção do que fosse uma gestão pública em nenhuma das três esferas, mas resolveu encarar assim mesmo. Saiu dali direto para a sala onde funcionava a secretaria de saúde. Silvia estava lá. Era uma servidora antiga da casa. Conhecia todos os sistemas e a burocracia inerentes ao departamento. Elas já se conheciam e quando ela contou a novidade recebeu um sorrisão. Ninguém gostava de Eneida. Ela então partiu para fazer todos os cursos possíveis e foi se adaptando ao desafio que era organizar a provisão da assistência gratuita de saúde ao povo, contando apenas com uma unidade de saúde de cuidados primários e muitas, mas muitas dores de cabeça a serem debeladas. Fez primeiro um curso à distância e depois passou a ir uma vez por mês para Bela Montanha, na escola onde tinha feito a graduação. Alguns professores da área social ainda estavam lá, e acharam muito bacana a posição que ela passara a ocupar. Nas aulas da pós-graduação havia uma liberdade e sempre tinha um exemplo concreto e por vezes engraçado de Margem Grande a compartilhar. De ambulância sem freios a mutirão de catarata, ela teve que passar a entender e a resolver. Em Bela Montanha ela se hospedava na casa da irmã mais velha, Gérbera, que vivia naquela época , a experiência de uma separação conjugal ha tempos desejada, na companhia dos filhos Caetano e Luana. Gérbera tinha um enorme talento para os detalhes e um bom gosto invejável. Era decoradora, enfeitava tudo e rezava para a Santa. Comprava flores toda semana na feira, mesmo que não houvesse motivo algum para embelezar a sala ou estivesse triste o bastante para não desejar ir até lá. Seu talento culinário também era conhecido, assim como sua risada quando o caso era realmente engraçado. Falava pouco de si mesma. Sobre suas emoções profundas, talvez só a Santa soubesse. Em agosto vovô Tico faria oitenta anos, e uma festa ótima foi preparada pra ele em Mangaí. Os filhos se reuniram, teve música ao vivo, teatro amador dos netos, fizeram um campeonato de futebol, festejaram por dois dias. Alan filmou tudo e depois editou. No movimento, ninguém, inclusive ela, reparou que sua mãe Clara não estava bem. Só no dia seguinte constataram que ela tinha passado a noite em claro e que tinha iniciado um novo episódio de adoecimento mental, posteriormente diagnosticado como catatonia. Providências tomadas, ela partiu com Alan para Bela Montanha levando sua mãe para um novo ciclo de tratamento de dias sofridos e extenuantes. Durante a viagem, cada vez que via um ipê amarelo, ela tentava fazer uma espécie de oração, porque sentia-se emocionalmente debilitada e incapaz de acolher como deveria, a própria mãe. Eram daqueles momentos delicados e difíceis. Mas Alan estava lá , e ao contrário dela, sabia rezar inteira, a prece de Cáritas...

Tuesday, August 17, 2010

Capítulo TREZE...

Quando Alan voltou pra casa dos pais no final daquela temporada com uma aliança no dedo, já tinha decidido que sua vida precisava ser recomeçada ao lado dela. Tratou de ir atrás da sua tranferência na faculdade que ainda cursava para dar continuidade aos estudos em Mangaí. Em um mês ele desembarcou de novo no JK, e dessa vez com um pouco mais de bagagem. Deixou para trás só o que sabia que não lhe caberia mais em sua nova condição de homem responsável por si mesmo, e todo o resto fluiu naturalmente. Carolina se dispôs a ajudá-los. Tinha uma empresa, a Colheita Tratores, onde ele poderia ser inserido como colaborador. Eles encontraram rápido um apartamento pequeno, que ficava em cima de uma farmácia cujos donos eram vizinhos muito simpáticos. Ela partia toda segunda-feira de manhã para Margem Grande e retornava às sextas-feiras à tarde. João Felício era seu companheiro da estrada que era esburacada e poeirenta na maior parte do trajeto. Aproveitavam para botar toda a fofoca da semana em dia, e ainda ficava faltando, porque eram só cinquenta quilômetros, afinal. Durante a semana inteira cada um se virava sozinho. Alan tinha aprendido com a mãe alguns truques culinários e teve que colocá-los em prática para se manter bem alimentado. Nos finais de semana eles cozinhavam juntos, liam o jornal no banco da pracinha, iam ao clube, assistiam a filmes alugados na locadora. Alan gostava da feira dos produtores e aprendeu a comer até os legumes dos quais ele dizia não gostar. Não havia muita coisa a se fazer em Mangaí, e as pessoas ás vezes tinham que correr atrás de seu próprio entretenimento. Para ela não havia muitas opções de leitura. Vez ou outra encontrava bons clássicos em edições de capa dura que vinham junto a alguma revista na banca. Um dia sentiu muitas saudades e escreveu uma cartinha para a sobrinha Cecília, filha de Catarina. Cecília era uma fofucha. Elaborava frases e falava melhor que a maioria dos adultos desde que começou a se entender por gente. Foi ao correio. Ela e Alan decidiram pela formalização do casamento, mas só quando os pais de Alan pudessem estar presentes, o que seria então só nas férias de janeiro. Numa tarde dessas, em Margem Grande, lá pela metade do segundo semestre, ela se dirigiu tranquilamente de branco, as barras da calça sujas da poeira incessante e o jaleco na mão, à creche municipal para começar um trabalho com as crianças. Tinha iniciado um projeto ousado que pretendia ser de promoção da saúde bucal para os pequenos, com a intensão de envolver também suas mães. Faria palestras, tentaria reverter o quadro epidemiológico precário instalado, porque continuava acreditando em mágicas soluções em saúde bucal da época de graduanda à beira da colação de grau. Ao se aproximar do trabalho naquele dia, tudo estava no lugar: as calçadas recém pintadas, os arbustos bem cuidadinhos e a placa nova no lugar. Só uma coisa lhe chamou a atenção. A bicicleta de Zé-limão estava estacionada na porta. Quando ela ia entrando deu de cara com ele saindo, totalmente esbaforido: " o prefeito tá chamanocê lá no gabinete e é urgente". Ela se assustou um pouco, mas disse que já ia. Frente ao afobamento dele, ela até pensou em pedir uma carona mas nem deu tempo, porque em segundos Zé-limão já tinha montado em sua bicicleta e descia em direção à prefeitura disparado, quase atropelando as galinhas de estimação de dona Dina, que fugiam pra rua todos os dias e voltavam quando ela chamava. Quando ela chegou ao gabinete, o cunhado Roberto, marido de Carolina, conhecido como Roberto da Colheita, aliado politico, e dono de boa parte das terras da região, tomava café com o prefeito, sentado muito confortavelmente na cadeira. E os dois a receberam para uma conversa bastante séria...

Sunday, August 15, 2010

Capítulo DOZE...

Era feriado. Mas o prefeito de Margem Grande fez questão da presença de todo mundo para as comemorações do dia do trabalho, com direito a discurso e promessas recheadas de superlativos. Depois do almoço, ela rumaria para o aeroporto na capital, para buscar Alan. Caprichou tanto na produçao naquele dia que Zé -limão não se conteve e lhe fez o elogio mais simples e mais poético de toda a sua vida. Zé-limão era uma espécie de fiel escudeiro do prefeito. Um velhinho simpático que ficava horas confeccionando o próprio cigarrinho de palha, enquanto ouvia e contava "causos". Servia ao mesmo tempo de office-boy da prefeitura e "resolvedor" de pendências extra-gabinete, do tipo ir à casa de alguém para avisar sobre o horário em que partiria a carona que a pessoa tinha solicitado para Brasilia no dia seguinte. Todo mundo já sabia. Onde estivesse estacionada a bicicleta de Zé-limão, durante o dia, ali estaria sendo resolvido algum assunto alternativo, mas importante para a municipalidade. Ele estava sentado no seu banquinho de sempre na porta da prefeitura, quando ela passou e riu pra ele: "oi, zé". Ele, vendo alguém se aproximar, pegou no braço dela fazendo com que ela parasse e desse uma pequena voltinha, dizendo com o sotaque típico, enquanto mostrava ao outro que passava: "óia, Pedrão, ela parece um pingo d'água na fôia do inhame". O outro riu, e falou que parecia mesmo. Só ela nao entendeu do que se tratava, mas ficou com vergonha de perguntar na hora. Só sabia que ele seria incapaz de ser desagradável. Ademais, um pingo d'água também era tão inofensivo quanto ele próprio. Mais à frente encontrou o Nélio da Tininha e perguntou pra ele, já que ele era um velho conhecido da familia que morava lá. Nélio então perguntou se ela ja tinha visto uma folha de inhame, e explicou que a folha tinha uma textura tal que uma gota d'água quando em cima dela brilhava tanto quanto um cristal. Ah, que bonito, Zé-limão era poeta. Além dele, ela conheceu naquele lugar alguns outros exemplares da simplicidade humana, que a fizeram repensar suas próprias mazelas e exercitar sua sensibilidade. Como o senhor idoso que vinha de uma fazenda, um pouco mais distante e recusava-se a ser atendido por qualquer outra pessoa que nao fosse ela, porque ela tinha tido um cuidado especial com ele da primeira vez que o atendeu. E todas as vezes em agradecimento, àquilo que ele por simplicidade, achava que não era parte da obrigação dela como profissional, levava doces e queijos de sua produção caseira para presenteá-la. Era tudo muito gostoso e temperado com a sutileza do campo e a humildade do velho homem. E tinha também as crianças. Algumas que precisavam mais de colo do que de restaurações de amálgama. E tinha todas aquelas pessoas. Naquela tarde, ela dirigiu os cento e poucos quilômetros que separavam Margem Grande da capital do país e encontrou Alan, oferecendo-lhe o afago do qual ele tinha, pela primeira vez manifestado verbalmente ter sentido falta. Foram direto pra fazenda da irmã Carolina, onde ela tinha passado a morar durante os dias da semana que ficava em Margem Grande para trabalhar. Depois foram a Mangaí. Mangaí tinha no máximo duas bancas de jornal, três livrarias e duas joalherias. E foi numa delas que eles entraram, no dia seguinte sem contar a ninguém, para encomendar as alianças que eles colocaram na mão direita um do outro, sem cerimônia alguma ou estranhamento. Precisavam diminuir a distância e estar comprometidos de uma forma real e suficientemente normal. E avisaram para todo mundo depois, que tinham ficado noivos...

Thursday, August 12, 2010

Capítulo ONZE...

Foi seu pai quem a buscou no aeroporto JK. O patriarca da familia Floreira dos Santos, Vovô Tico, como era carinhosamente chamado pelos netos e bisnetos, tinha alugado o táxi do seu amigo em Mangaí, e viajado alguns quilômetros para ir buscá-la, imaginando certeiramente que ela traria consigo uma tralha gigantesca, já que vinha de mudança. Vovô Tico já beirava os oitenta anos, mas ainda tinha disposição para mais uma coleção de décadas. O gesto dele lhe trouxe um conforto emocional maior até do que o abraço que ele lhe deu no desembarque. Na viagem, reparou no céu que estava azul demais, enquanto ouvia a conversa animada do simpático motorista com seu pai. No final das frases ele dizia: " o senhor não acha, seu Tico?" E ele respondia: " pois não é?". Na chegada, sua mãe Clara, a esperava com a mesma paciência e resignação, e as pouquíssimas palavras de sempre. Tinha feito pão de queijo, e o café e o suco de maracujá, sem açúcar. Ela não quis admitir de cara, mas não reconhecia mais seu antigo quarto como seu. Acomodou-se, mas não quis mexer em muitas coisas no primeiro dia, preferiu ir ver a irmã e os sobrinhos. Na semana seguinte teria que se apresentar para o novo trabalho na prefeitura da cidade de Margem Grande, antigo distrito do município de Mangaí, distante cinquenta quilômetros. Margem Grande era uma cidade minúscula onde um espirro de alguém na praça da prefeitura às dez horas da noite podia ser ouvido por todos os habitantes do lugar. O posto de saúde era arrumadinho, e o novo prefeito estava cheio de projetos para o seu mandato. A politica do lugar era ferrenha. O adversário politico era um inimigo e ponto final. Um dia o prefeito a chamou para saber porque ela tinha solicitado à Secretaria de Saúde que comprasse um tipo de anestesia mais cara.
" é porque estamos com alguns pacientes cardíacos e hipertensos que não podem ser anestesiados com vasoconstritor" ela respondeu.
" Ah é? e quem são?" perguntou o prefeito, já que conhecia até quem ainda estava por nascer.
"Olha prefeito, tem o Seu Zé Mundin, a dona Nena do Tião, a esposa do João das abelhas, e também o seu Nico leiteiro e a Solange do salão", ela disse. E o prefeito tratou logo de fazer piada, pois eram todos adversários politicos:
"Ah, mas esses aí você não precisa anestesiar não, viu? hehehe".
Ela aprenderia ali coisas práticas da vida e do serviço público, que curso nenhum poderia oferecer. Aprenderia a mensurar o peso e o valor que pode ter uma circunstância, e a compreender um pouco mais sobre as motivações humanas que fazem girar o mundo. No primeiro dia de trabalho foi acolhida por um colega de profissão que se tornou depois seu grande amigo. João Felício era um desses seres que todos gostariam de ter como irmão. Tinha um altruísmo contagiante e uma humildade infinita. Tinha um problema: não sabia dizer não a ninguém, e às vezes se atrapalhava com isso. Vinha todos os dias de Mangaí para trabalhar e voltava à tardinha no ônibus da prefeitura que levava os estudantes que faziam curso superior por lá. Era um pai dedicado e ótimo conselheiro. Sabia absolutamente tudo sobre política e atualidades. Sua memória era a de um elefante, e só saía do sério quando o seu time do coração, o Cruzeiro, perdia o jogo. Tirava as mãos da boca do paciente para gesticular indignado: "mas você viu, né fulano? aquele jogador lá, que o técnico colocou não era pra ter colocado não, aquele cara não vale uma guimba de Derby..." . Ela adorava aquele amigo. A vida tinha dado uma guinada tão brusca que ela não teve muito tempo para pensar se Alan sentia ou não a sua falta. Um mês depois, foi o aniversário dele, e quando ela telefonou, o encontrou meio tristinho. Ele falava de um jeito que ela só pôde interpretar como a voz de alguém que sentia imensa saudade. A conversa foi longa, ela tinha coisas inusitadas e engraçadas a contar. Na despedida ele disse a ela que no mês seguinte estaria de férias e que queria ir ao seu encontro em Mangaí. Ela sentiu aquele soprinho de ar que se sente quando o peito fica leve de feliz, e por incrível que pareceu, aquele mês passou mais rápido para ela do que todos os outros...


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Wednesday, August 11, 2010

Capítulo DEZ...

No dia em que Catarina anunciou que a empresa se mudaria dali a alguns meses para outra capital, a equipe inteira topou ir junto. A familia de Alan, compunha quase que totalmente a equipe, portanto ela, a irmã, indubitavelmente, iria também. Não sabia ao certo o que faria lá, mas encaixotou sem medo, todos os seus pertences, como se estivesse virando uma outra página. Tinha se esquecido um pouco daquela sua mania de escrever, que um dia a tinha feito ganhar uma bola de plástico como prêmio do primeiro lugar num concurso de redação da segunda série do ensino fundamental. Naqueles ultimos anos tinha escrito, no máximo, duas ou três cartas e mesmo assim, sem nenhuma reticência poética. Uma para a amiga que frequentava com ela os ensaios da banda de blues do antigo namorado em Bela Montanha e outras respondendo à sobrinha Gisele, que lhe escrevera angustiada por estar longe da familia enquanto fazia faculdade de fonoaudiologia em uma outra cidade que não era a sua. Ela adorava dizer que Gisele era um exemplar lindíssimo da familia Floreira dos Santos. Era uma geminiana dócil e linda. Tão linda que dispensava qualquer adereço. Gisele não precisava nem de maquiagem para iluminar o rosto, como faziam todas as outras mulheres. O rosto dela já tinha aquela claridade de menina bonita. Fora estas pouquíssimas cartas ela não havia produzido absolutamente nada. Talvez lhe faltasse inspiração, mas muito menos que o necessário sossêgo na alma para escrever poesia. O prazer da leitura, pelo menos esse, ela não tinha abandonado. Leu de Garcia Marques a Roberto Torero, e mais tudo o que pôde, durante sua estada aos pés da morada de Iemanjá. A cidade para onde estavam se mudando também era no litoral, só que um pouco mais barulhenta e um tanto mais mística, e era onde o carnaval durava mais do que se podia imaginar, sob as bênçãos de Jorge Amado, Mãe Menininha do Cantois e Carlinhos Brow, com seu cocar de índio, em cima do trio elétrico. Mas Redentor era uma cidade que tinha lá seus encantos e seus odores concretos, como não? Catarina começara um grande desafio a partir dali, com previsão de vendavais e tormentas. Antes disso, e sem que ela tivesse planejado, a outra irmã Carolina sugeriu que ela voltasse para perto dos seus pais, que moravam desde sempre em Mangaí, onde tinha nascido, pois havia a oportunidade de um bom trabalho no setor público, já que ela tinha reclamado que andava mesmo sem nenhuma perspectiva profissional naquela nova cidade. E ela decidiu que voltaria, pensando em sugerir a Alan que fossem juntos. E eles por fim conversaram sobre o assunto mais importante de todos, dentro do tempo em que compartilharam momentos bons e ruins. O desfecho não foi o esperado que a fizesse sorrir. Diante da hesitação de Alan, ela entendeu que não caberia insistir, mas muito menos mudar de idéia. Instintivamente sabia que tinha que ir, com ele ou sem ele. Marcou a passagem e os dois se despediram algum tempo depois no aeroporto, num abraço longo, mas calmo, porque havia uma sensação estranha de que seus corações ainda estavam de certa forma alinhavados. E descobriram depois que estavam mesmo...



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Tuesday, August 10, 2010

Capítulo NOVE...

Laila era a sobrinha mais velha, que por um período curto morou com ela na Cidade do Sol. Também estava à procura de algo entre paz de espírito e recomeço, enquanto escrevia sua dissertaçao de mestrado em cinema e se recompunha de uma separaçao sem volta. Catarina deu logo um jeito nas coisas, e conseguiu um trabalho para ela. A alta temporada não dava trégua a quem trabalhava na aviação. Todos, incluindo Alan, mal tinham tempo para namorar. Mas o namoro ia durando. Foi Laila quem sugeriu a ela encomendar uma revolução solar para Brígida. Brígida era uma astróloga pra lá de bacana, velha conhecida, da cidade de Bela Montanha de onde ela tinha vindo e que fazia além do mapa astral, a chamada revolução solar, que era uma síntese de previsões importantes para as pessoas no período entre um aniversário e outro. Assim ela fez. Encomendou o negócio, para saber o que mais poderia acontecer naquele ano, além daquele verão que insistia em ser eterno e pungente. Um dia, depois do trabalho, foram as duas assistir à estréia do seriado de autoria de Ariano Suassuna: O Auto da Compadecida. Se acabaram de rir. Choraram de tanto rir, pelo recado dado por João Grilo e Xicó. Por um instante parecia que a vida era mesmo muito engraçada e que nao havia motivo para nenhum tipo de mágoa escaldada ou para pensar que a busca da tal felicidade fosse um processo assim tão custoso. Laila ficou pouco tempo. Preferiu voltar. Pensou haver um outro resgate a ser concluído em terra natal. Mal sabia ela, que tempos depois voltaria para conhecer uma outra vida e um grande amor, muito próximos dali. Tinha a determinaçao dos escorpiões. Gostava de ver o sol se afogar todos os dias no mar, no final da tarde, porque tinha certeza de que ele renasceria inteirinho em todas as manhãs seguintes. Algumas semanas depois de sua partida, o carteiro colocou na caixinha uma correspondência vinda de Bela Montanha. Não era ela. A remetente era Brígida, informando na revoluçao solar que naquele ano os astros apontavam para um céu de muitas mudanças. Mudanças bastante expressivas e ajustes bastante delicados...




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Thursday, August 05, 2010

Capitulo OITO...

Nereide era a moça que fazia os trabalhos domésticos no apartamento dela. Sabia fazer uma sopinha de feijão deliciosa e trocava as consoantes ao falar. Ela admirou-se: " vixi! mar é lindo esse brinco, visse?". E ela ganhou os brincos. O dia começava as cinco e meia da manhã, porque ninguém aguentava ficar na cama com o sol que já começava a ferver às seis. Anoitecia mais cedo também. Sua irmã (Catarina) naquele ano, tinha incluído na lista de funcionários de sua empresa, um casal: Tayná ( a amiga capoeirista da irmã) e o marido dela, também capoeirista, Joni. Além disso, alguns familiares do namorado da irmã, incluindo o próprio (Alan), passaram a trabalhar com ela, trazendo grande proximidade e amizade entre todo mundo por ali. E o namoro ia durando. Catarina era desde sempre, ligada à filantropia, e incentivou a irmã a prestar serviços voluntários como dentista que era. O lugar era uma espécie de instituição mantida pelo governo do Estado, sendo ao mesmo tempo uma casa para menores aprendizes, com oficinas de vários tipos e que abrigava crianças também no período em que suas mães estavam no labor. Ela dedicava uma tarde por semana para ir até lá. Sentia-se útil, sentia-se bem. Naquela segunda-feira, pós fim de semana quase trágico de discussões ofensivas e sem sentido algum com Alan, ela resolveu ir pra lá mais cedo. Atendeu algumas crianças sem nem olhar pra elas. Sentia um misto de raiva com angústia quando algumas delas choravam só de ver a seringa, ou qualquer outro instrumento metálico se aproximando. Saía um, entrava o próximo: "próximo!". Entrou um menino, que devia ter uns seis anos. Ela sabia reconhecer a idade pela presença ou não, de dentes de leite em determinadas posições na boca das crianças. Ele veio assustado, na verdade, em pânico, sua palidez era visível. Quando ele se sentou na cadeira, botou os olhos enormes nela e não tirou mais. Ela o percebeu. A blusa dele tinha vários furinhos e o calção era o que alguém tinha dado, porque era tão largo que estava amarrado na cintura com uma corda. Já os chinelos eram pequenos demais, deixavam quase a metade do pé pra fora. O cabelinho estava sujo e ele permanecia mudo. Ela parou por um instante e olhou pra ele. Ele continuava imóvel, sem piscar, agarrado ao braço da cadeira, com os olhos súplices nela. Ela começou a sentir um profundo desagrado de si mesma. Sentiu-se pequena e completamente estúpida. Não conseguiu agir. Disse à sua auxiliar que não se sentia bem e precisava ir embora. E foi. Chorou pelo trajeto inteiro até sua casa, e depois se aliviou pelo sorrisão banguelo do sobrinho-afilhado a chamando para lutar de espada com ele. Ele não gostava de beijos, mas naquele dia ela lutou com ele até conseguir um...



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Monday, August 02, 2010

Capítulo SETE...

Um namoro? sim, engataram um namoro. Eles moravam um pouco distantes um do outro, mas nos fins de semana, principalmente nos que davam praia, havia o desejo. Eram diferentes. Talvez uma versão alternativa para "Eduardo e Mônica", só que com menos leveza. Na verdade, havia bastante tempo que ela não andava se importando muito com suas manias não satisfeitas. Não que não houvesse cumplicidade. Seus corpos às vezes pareciam imantados. Mas havia também uma certa distância subjetiva, mas que ela decidiu percorrer de qualquer jeito, sob o risco de ter que resolver tudo depois. Ele trouxe a possibilidade da diversão e um começo sem atropelos. Ela o enxergava alegre, na maioria das vezes, até que um dia o descobriu profundamente angustiado e absorto numa nuvem densa demais para ser suportada sozinho. Decidiu compartilhar. Ele, numa situação familiar delicada, ela numa situação individual propensa a todo tipo de saudade. A irmã fazia tudo por ela, desde carregá-la para todas as festas do babado da cidade, até cuidar de ensinar a cozinheira que não deveria colocar açúcar em todas as coisas. A irmã vivia um momento super astral e promissor naquela cidade, e tentava contagiar todo mundo. E ela conseguia. Certa vez, o cunhado viajando, foram as duas, para uma festa à fantasia, com direito a uns drinks estupendos e tanta diversão, que no dia seguinte não se lembrava nem de como a irmã a tinha levado pra casa. Por sorte, podia contar com a compreensão do cunhado. Um dia, depois de vê-la ao telefone com ar de proposta, a irmã quis saber: "... ah é?, e quem é ele?". E quando ela contou, ouviu só um "humm", de volta, porque era meio avessa a julgamentos antecipados. O namoro, ora ia bem, ora ia tão mal que não se cogitava sequer ir atrás das respostas. Nesses momentos, de extrema chateação, tornava-se mau-humorada, não se engraçava com muita coisa. Sentia culpa por saber que nem tinha mais idade para ter sentimentos tão infantis de possessão sem justificativas. Numa tarde dessas, num rápido relax, lembrou-se que tinha ótimo gosto musical, porque até disso tinha se esquecido um pouco. O moço que vendia brincos no calçadão da praia tocava uma gaita. Ela se aproximou para ouvir melhor. Reconheceu a música. Era a clássica "Manish Boy" de Muddy Waters, e fingiu estar olhando os brincos que tinham um estilo bem riponga, que não era absolutamente o seu, e ficou por ali só para continuar ouvindo. Os brincos eram horríveis, cada um mais feio que o outro. Umas pedras fuleiras que não combinavam em nada com as sementes, mas foi obrigada a levar um, porque sua auto-estima estava em frangalhos e o gaitista-riponga-artesão a chamou de princesa. "Não vai levar um brinco, princesa?"...



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Saturday, July 31, 2010

Capítulo SEIS...

O inverno em toda aquela região significava um período muito chuvoso, que inundava ruas e casas, mas nunca fazia frio. Sem os dias acesos de sol, a única paisagem que ela contemplava era a do cruzamento das avenidas que ficava bem em frente à varanda, enquanto pedalava na bicicleta ergométrica à noite. Começou a sentir uma falta tremenda do ballet e do jazz, que só era aliviada quando botava o Earth Wind and Fire para tocar. No fim do ano, seus pais, a outra irmã e os outros sobrinhos vieram para passar o natal e o ano novo, e ela pôde matar um pouco da saudade do seu próprio sotaque. No início do inverno seguinte, sentiu-se mais só do que o de costume, e desejou fortemente uma companhia para comer pipoca com a cabeça pousada no seu ombro no cinema, ou ler um livro inteiro juntinho quando começassem as chuvas. Djavan fez um show na cidade, e ela se emocionou de uma forma esquisita quando ele cantou ".... se o senhor me for louvado, eu vou voltar pro meu cerrado...". Comprou o CD. Uma amiga ligou pedindo para que não fizesse nenhum compromisso para o sábado seguinte, pois queria a companhia dela para comemorar seu aniversário, e dançar pra valer, como ela gostava. Adorou a idéia, e resolveu que ia deixar de lado a preocupação de estar sozinha, mas mesmo assim, pediu comida chinesa naquela noite, só para ver o que tinha de mensagem dentro do biscoito da sorte. Passou a semana toda dedicando-se a conquistar novos clientes no seu trabalho e lá pela sexta-feira, em casa, o telefone tocou várias vezes, insistente, mas quando atendia, não se ouvia nada. Depois disso, teve a sensação de que tinha ouvido batidas na porta da frente, mas tinha sido só o vento. O sábado chegou, a festa da amiga tornou-se animadíssima lá pelas tantas. A música estava pra lá de boa e ela só parava de dançar para tomar uns golinhos da água de côco mais doce do planeta, que era produzida naquela terra. Dispensou um ou dois olhares, até que alguém veio dançar com ela, reparando nos passos e tentando fazer igual. Ela gostou, e ele tinha um sorriso bonito demais, impossível de não se notar, um perfume bem agradável, e também vinha de longe...








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Friday, July 30, 2010

Capítulo CINCO...

Seis meses depois, após mais desacertos que acertos, as coisas passariam a não mais fazer sentido para ela, e depois de ter conseguido afastar todas as chances de pensamentos ruins, imaginando o porquê daquilo não ter dado certo, ela passou a pensar que tudo tinha durado o tempo exato de todas as coisas na vida que são assim, de alta intensidade e baixa frequência, afinal a distância não ajudava e não havia perspectiva alguma de qualquer mudança radical ou compromisso. A crônica de Ferreira Gullar anunciava: "Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos". Tratou logo de começar um livro novo. Caetano Veloso tinha acabado de lançar o seu "Verdade Tropical", e passou a se distrair mais também nas rodas de capoeira. Não adiantou muito. Sempre que ouvia o trompete de Miles Davis ou coisa parecida, virava-se toda para dentro e jurava não se encantar por mais ninguém, por pelo menos, os próximos dez anos. Foi um período introspectivo, desses que nunca lhe faziam muito bem. No trabalho também, as coisas não iam assim, de vento em popa e ademais, sabia que nada estava exatamente em seu devido lugar. Naquele dia sua glicemia se alterou, a lua não saiu e a maré permaneceu baixíssima. A amiga capoeirista resolveu levá-la a uma consulta com os búzios. E eles disseram: "há um rapaz, e ele não é daqui..." Ela não se conteve e riu muito, porque lembrou-se na mesma hora da história da protagonista do romance de Clarice Lispector "A Hora da Estrela", e saiu sem pagar, de tão indignada...



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Thursday, July 29, 2010

Capítulo QUATRO...

À primeira vista, nada lhe chamou a atenção no moço de óculos e pouquíssima bagagem que acabara de chegar. Ela se distraiu com a outra amiga da irmã que chegara no mesmo vôo para passar o fim de semana. Era uma quinta-feira. No jantar, trocaram impressões sobre várias coisas, descobriram afinidades, seus gostos musicais eram meio divergentes, mas ele se mostrou curioso quanto à vida dela na nova cidade. Ela o achou simpático. No dia seguinte, dia internacional de todas as pessoas que trabalham esticarem suas conversas nas mesas dos bares e congêneres, lá foram eles e mais um monte de gente, para um lugar agradabilíssimo, onde riram um bocado, e sob a brisa do mar brindaram, os dois, com suco de laranja. Ela o achou interessante. O sábado veio com sol, e ao invés de voltar para casa como ele tinha se programado, ligou para a mãe, e avisou que ficaria, porque a praia o havia hipnotizado. Ela o achou inteligente. Á noite, eles já super à vontade, combinaram conhecer o lugar badalado que constava no Guia Quatro Rodas, e ela pôs um vestidinho vermelho com sandália bem alta. Ele a olhou um pouco mais demoradamente e fez um elogio rasgado, nada contido, mas muito bacana. Ela brincou com ele que ele tinha esquecido seus óculos, e ele jurou que os óculos eram só um disfarce, e que eles serviam mesmo só para enxergar bem longe o que não tivesse nenhuma beleza. E dessa vez ela o achou incrível. Na pista de dança, ela não tinha preocupação alguma, e dançou como gostava e sabia fazer. Ele não se arriscou, preferiu ficar sentado sem tirar os olhos, porque não sabia dançar e segundo ele confessou depois, aquele momento tinha sido ímpar. Ela já tinha percebido. Saíram de lá, as pessoas se despediram dos dois e quando se viram sozinhos, tomaram a direção oposta e caminharam conversando até a praia, e a sensação foi de que teriam assunto para mais duas vidas inteiras... e foi quando, de repente, ela sumiu no abraço dele, porque tinha tirado as sandálias, e era muito baixinha...




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Capítulo TRÊS...

A vida seguiu, sem pressa, no período em que ela viveu na cidade linda, mas totalmente diversa da que tinha deixado. Um dia ela reparou que no noticiário local, o apresentador que falava sobre a previsão do tempo, tinha que falar também das tábuas das marés oceânicas. Talvez mais importante que dar previsões sobre o trânsito ou sobre tetos para pousos e decolagens, fosse saber se a maré estaria alta ou baixa, no transcurso do dia das pessoas. No campo emocional, haveria para ela também alguns altos e baixos, enquanto continuava sua procura pelo sentido de todas as coisas. Por sorte, naquela cidade, ela encontrou por acaso, um médico muito simpático, atencioso e tecnicamente impecável para acompanhá-la e cuidá-la, no que era a sua maior frustração e desafio: uma doença crônica chatíssima, e um pouco limitante, embora não tão assustadora assim, que adquirira na adolescência. E ele a despertou para coisas importantes em relação ao cuidado de si mesma, que trouxeram à reboque, um grau a mais na escala de sua auto-estima. Nessa esteira, sentindo-se super agradável e até um pouquinho bonita naquele dia, sua irmã pediu que fosse com ela ao aeroporto buscar alguém que viria de Brasília para prestar um serviço técnico na sua empresa. E ela foi. E quem desembarcou foi um rapaz...


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Monday, July 26, 2010

Capítulo DOIS... dez anos antes



Muitos anos antes, havia consultado uma taróloga, recém-chegada na cidade, assim como ela. Ela tinha se mudado para uma terra bem longe no mapa. Um lugar lindo, bem propício para os que procuravam alguma coisa e não sabiam bem o quê. "Eu vejo um rapaz... ", dizia o tarô. Um discurso bem comum, para uma consulta com as cartas, a única coisa diferente era a paisagem, onde a moça vidente se inseria. Aquela cidade linda, onde fora depositar seus desejos e tentar um pouco mais de sorte, incentivada pela irmã, com quem tinha um laço fraterno fortíssimo. Era um lugar lindo, onde ela iria conhecer pessoas, trabalhar, e viver por lá, com direito a muito sol e mar e um pouquinho de desconfiança no futuro... Naquele dia ia ter lual na praia, os amigos da capoeira estariam lá, e a diversão portanto estava garantida, mesmo que as cartas do tarô nada dissessem sobre um futuro imediato regado a "meias-luas" ou maculelês cheios de ginga. Ainda naquele dia, quando chegou em casa, deparou-se com um pacote do correio sobre a cama. Era um CD que sua banda de Acid Jazz londrina favorita acabara de lançar, com um bilhete da pessoa que ela havia deixado para trás, quando se mudou, pedindo que voltasse. O CD foi logo colocado em volume alto pra ouvir, e ela o ouviu pelas duas semanas seguintes sem trégua, enquanto o bilhete permaneceu sem resposta, até que um belo dia ele sumiu... porque não havia mesmo o que responder...



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Sunday, July 25, 2010

música no metrô...

Sou adepta do transporte coletivo. É claro que não é porque sou politica ou ecologicamente correta, estaria mentindo, se o dissesse, minha alma não é tão evoluída assim. Na verdade, ando preferindo a rapidez e o não-trânsito dos trilhos do metrô para ir ao trabalho. E agora, vira-e-mexe tem alguém tocando ou cantando lá dentro, quiném nos metrôs de NY e Paris. Preciso dizer? acho ótimo! Os repertórios? variam muito. Mas o mais interessante são as reações das pessoas. Há os extremamente mau-humorados de manhã, mas há também quem interaja, cante junto, e ainda por cima peça algo de sua preferência, huahuaaa, muito bom!


De resto, continuarei versando sobre o ser humano e suas causas... que, por mais que se tente, nunca haverão de ser todas muito bem resolvidas...



E inspirada por uma das melhores romancistas que conheci nos ultimos tempos (Lionel Shriver), resolvo começar:



Capítulo UM



Aquela sexta-feira, ao invés de representar um marco de sossêgo na semana ultra- agitada, foi para ela, o dia em que decidiu que estaria total e completamente enganada sobre os seus mais valiosos e secretos sentimentos. Chegou em casa absolutamente triste, o marido já estava lá. Não o encarou, pelo contrário, tratou logo de dar-lhe as costas para fechar a porta, demorando-se mais do que o de costume, com as duas voltas da chave. Ele, que pelo tempo juntos e não por ter uma sensibilidade poética, percebeu alguma coisa de frustração no ar, foi logo perguntando: "o que foi? o que há com você? porque está tão "machucada" assim?" Ela, já deixando bolsa, óculos e casaco pelo caminho em direção ao quarto para emitir sinais de naturalidade, respondeu que não era nada, ao mesmo tempo em que respondia para si mesma, ainda com a música do Caetano na cabeça: "não foi nada, foi só a onda do mar do amor, que bateu em mim"...



continua...no próximo capítulo!