Não sei porquê, mas tive um ímpeto de falar sobre a infância. Pode ser o inconsciente tentando sugerir o primeiro passo para um longo e detalhado projeto de escrever sobre a família, desde muito tempo lá atrás. Que tarefa!
Não dá pra discorrer sobre o assunto infância, sem citar meu avô materno e sua fazenda, o Córrego Fundo, ah! não dá mesmo. Era lá que as nossas férias escolares ganhavam sabor. Era muita gente junta e todo mundo gostava de brincar, até os mais velhos. Sou capaz de pensar que uma criança feliz é aquela que tem ou já teve uma fazenda do avô pra ir nas férias.
Pois bem, vovô Zé gostava de morar na cidade e fumava cigarro de palha. Desde que me lembro dele, sentado, enrolava o fumo comprado na mercearia, na palha de milho seca que ele trazia da fazenda.
Vovô Zé era calmo e tinha uma risada sempre pronta, contagiante. Era o tipo de ser humano que a gente respeitava por existir. Não era necessário nenhum arroubo de conduta ou qualidade. Ele era uma figura encantadora pelo carinho que transmitia, sem nenhum esforço. Difícil ver alguém parecido. Aliás, não tenho lembrança de ter convivido com nenhuma outra figura masculina com aquele coração.
Certa vez uma lagarta, de uma espécie peluda e cheia de gomos, daquelas que habitam as goiabeiras, muito conhecida entre nós que brincávamos em todos os quintais possíveis, queimou-me a mão quando eu a encostei, sem querer, tentando apanhar uma goiaba. Uma queimadura de verdade, que me impediu de prosseguir com a brincadeira, já que eu era a menor de todas e tinha lá meus dotes de caçula manhosa e chorona. Lembro bem que doeu, mas não por muito tempo, porque vovô Zé, quando ficou sabendo do incidente tratou de ir apanhar lá dentro uma xicrinha esmaltada com água benta para curar o malefício causado pelo ser nojento e verde.
Vovô Zé era assim. Tinha fé de sobra, para ele e para nós. E segundo relatos dos que conviveram com ele, não havia nada no mundo que o fizesse maltratar alguém, e quando, já crescida e estudando fora, vinha de férias para o interior, lá estava ele, sentado á mesa da cozinha, pronto para dizer o “Deus te abençôe” mais importante de todos, e o mais difícil era ir lá na casa dele se despedir quando as benditas férias acabavam.
Mas eis que vovô Zé partiu muito, mas muito antes mesmo do que nós teríamos permitido, se pudéssemos. Poderia ele, ainda estar conosco, para contar uns causos e dar umas daquelas risadas, enquanto enrolasse seu cigarrinho de palha.
Vovô Zé era assim mesmo. Dessas pessoas pelas quais só podemos agradecer por tudo, pela água benta, pela bondade, pela infância com ele, pelas boas lembranças e por ter nos ensinado o sentido espiritual desta vida...Por ele não dá pra sentir outra coisa que não seja amor, enfim.
Deus abençôe nosso vovô Zé!
E FELIZ NATAL NÉ, GENTE!
FELIZ NATAL!!!!
2 comments:
Ele há de abençoar...
vixi!!!!!
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