é isso:toda a minha produção literária cabe num caderninho em espiral, escrita à mão.
SEU CHICO E SEU ZÉ
A visita era de Seu Zé para Seu Chico. Seu Zé usava uma bengalinha, Seu Chico não. Seu Chico ainda tinha sua companheira Dona Maria, para lembrar-lhe de pagar o IPTU, Seu Zé, não, mas contava com a nora, Ivone, muito atenciosa com ele.
Vizinhos desde que a cidade ainda nem era cidade, eram velhos amigos. Ambos nascidos na década de vinte, por isso a audição já não era a de outrora e a comunicação sempre era feita em um tom acima. Gostavam de ver novas construções sendo erguidas pela cidade. Exibiam sempre um belo par de sandálias confortáveis e meias escuras e viviam de seus aluguéis. A merecida aposentadoria por idade os fazia ir ao caixa do banco todos os meses e não pegar fila, claro. Uma beleza este Estatuto do Idoso.
Sentaram-se na varanda após os cumprimentos habituais e o velho e imprescindível comentário sobre o tempo.
Primavera chuvosa, e as mangueiras da casa do Seu Chico carregadas de frutos. Os mosquitos mais assanhados do que nunca.
-Bom pra chover este ano, né Chico?
- É, o problema são as goteiras. Tem uma goteira lá na loja da frente. O inquilino veio avisar. Deve ser alguma telha quebrada.
- Aposto que foram aqueles moleques, que andaram por aí nos telhados, tentando roubar. Não temos mais sossego, né Chico? Todo dia eles prendem um, ouço na Ronda Policial no rádio,mas não adianta, eles soltam todos, porque são menores. É a Lei, né Chico?
- É, não se pode deixar a casa sozinha.
- Outro dia tive que espantar um com a bengala. Ele estava me olhando lá da calçada. Eu lá de dentro gritei com ele e ele foi embora. Com esse tipo eu sou bruto, não dou moleza não, Chico.
-Já foi lá ver a nova loja, as Casas Bahia, Zé?
- Não, depois é que eu vou dar um passeio, mas vai ser só passeio mesmo. Não gosto de comprar a prazo.
Mudaram de assunto em seguida.
-Engraçado, a gente não ouve mais os sapos, né Chico? A gente sempre via um ou outro.
- É, eles sumiram mesmo.
Dona Maria veio oferecer uma xícara de café:
- Veja se está bom de doce, Seu Zé.
- Tá bom, Dona Maria, obrigado. Ivone foi consultar hoje. Coitada, com aquele problema nas veias, e fica fazendo serviço de casa. Graças a Deus, nessa idade que temos, não temos perrengue, né Chico? também temos uma vida melhor hoje do que naquele tempo em que a gente tinha que pegar no cabo da “sem graça”, não é?
Seu Chico respondeu com uma risadinha, repetindo a metáfora e Dona Maria disse Graças Deus.
Seu Zé então conversou mais um pouco sobre o prefeito e o que estava fazendo pela cidade. Uns quarenta minutos depois, levantou-se e disse que já ia.
- É cedo, Zé
- Não, vou tomar banho, antes que esfrie mais.
- Té logo, Chico, té logo, Dona Maria.
E foi andando devagarinho...
Monday, November 27, 2006
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