O XANDE
O Xande ainda
pequenininho, quando perguntado pelos adultos, quase sempre chatos, sobre seu nome, respondia: “eu sou o
Tândi”. Era uma típica criança pisciana, dessas que adoravam um cafuné e ao
mesmo tempo se manifestava muitíssimo irritado ao menor sinal de qualquer
contrariedade, o que em outras palavras significa, no bom dialeto mineiro, “um
menino emburrado”. Certa vez, a mãe, na tentativa de convencê-lo a não se
irritar quando chegasse ao local em que ele realizaria uma radiografia carpal para
o controle do crescimento, disparou: “ meu filho, nós vamos fazer só uma
fotografia da sua mãozinha”. E ele retrucou com a imediata cara feia: “fotografia?
tá bom, mas eu não vou rir não.”
Acontece que
ele cresceu e ficou fortão. Menino bonito e de posses, o que fazia a ala das
garotas lindas e perfumadas pelos hidratantes da Victória’s Secret se
aproximarem, como não? Passou no
vestibular na Universidade Pública, como sempre quis e sonhou o pai, e lá pelas
tantas e sem avisos, se perdeu num caminho pavimentado por sinistras pedras
pontiagudas que lhe feriram corpo e alma... mas em seguida recuperou-se retomando
o passo, como se faz os valentes!
Uma noite
dessas, voltando de carro de um compromisso, o trânsito nem tão complicado
assim porque era o mês de julho em Brasília, o semáforo ficou vermelho. Parei atrás de uma
caminhonete branca. Conferidos modelo, adesivos e placa, constatei: era o
Xande. Pisquei o farol e ele demorou alguns segundos para reconhecer a tia, virou-se
para trás e abriu um sorrizão, emendando um “ e aê, beleza? ”. Era uma
quarta-feira de início de rodadas do Brasileirão. Com o sinal ainda fechado, conferi
quando ele se virou de novo e se debruçou sobre a janela, falando alto e do jeito bem
característico dele: “ tia, bora assistir o jogo do Cruzeiro lá em casa, bora,
bora, bora...” Pensei: Brasília, esta pequena e pacata cidade, onde todos se
esbarram por aí. O sinal abriu, perguntei
quem mais estaria lá, e nem deu tempo de responder a ele que eu não
poderia ir, só fiz aquele gesto meio atrapalhado com a mão, de quando se quer
dizer a alguém do outro lado da rua “depois,
outra hora”.
Continuamos seguindo
pela pista, e ele num gesto, que só pude interpretar como de extremo cuidado,
quase carinho, foi dirigindo seu carrão potente e sem pressa alguma, na minha
frente, como se quisesse me conduzir até o destino para o qual tinha me
convidado e era como se estivesse dizendo, “ vamos tia, venha comigo”...
Como não
poderia deixar de ser, meu coração mole de tia, que o vi nascer e crescer fora
tocado, e foi com pesar que tive que piscar o farol de novo atrás dele para
avisá-lo, acionando a seta, de que eu entraria à direita, tomando outro rumo
para seguir meu caminho de casa. Ele entendeu, e deu tchau colocando o braço
grandão pra fora, já lá na frente.
Mesmo não o
avistando mais, continuei com ele no
pensamento, e desejando fortemente que o
Cruzeiro ganhasse naquele dia para que meu “ pequeno emburrado” afinal não se
irritasse com seu time do coração... e que bacana, hehehe...veja bem: naquele
dia, para a alegria do “Tândi”, o
Cruzeiro ganhou!

